Psicossomática e Desafetação: A relação entre o desafeto e as doenças psicossomáticas nas crianças – Uma análise de prontuários.
June 30, 2010 – 10:31 am
Psicossomática e Desafetação: A relação entre o desafeto e as doenças psicossomáticas nas crianças – Uma análise de prontuários.
Autores: BUENO, L. F.; MENEZES, S. A. F; LUCARELLI, M.D.M. (orientadora). Psicossomática e Desafetação: A relação entre o desafeto e as doenças psicossomáticas nas crianças – Uma análise de prontuários. Estudos Orientados, Curso de Psicologia, Instituto de Ciências Humanas, UNIP – Universidade Paulista. São Paulo – Araraquara, 2009.
Palavra chave: desafetação, indícios psicossomáticos, relação mãe – bebe.
O trabalho teve como objetivo investigar a relação da criança com a família, em especial com a mãe e o desencadeamento de uma possível desafetação e indícios psicossomáticos. Averiguamos se a relação mãe-bebê é fundamental para o desenvolvimento do indivíduo. Nos pautamos em fatores que podem estar inter-relacionados com o surgimento de doenças psicossomáticas e desafetação nas crianças. Foram sujeitos desta pesquisa prontuários de 08 crianças de 06 a 10 anos de idade, atendidas no Centro de Psicologia Aplicada da UNIP de Araraquara em psicodiagnóstico. A análise dos prontuários foi realizada a partir de um roteiro de investigação, para levantar os dados que demonstraram a relação da criança com a família e em especial com a mãe. Nas crianças analisadas, foi possível perceber a integração entre a relação mãe – bebe, o ambiente proporcionado pela mãe, o desenvolvimento do afeto, dos vínculos, da capacidade de simbolizar afetos e as estratégias defensivas, como a desafetação e o desenvolvimento de indícios psicossomáticos, uma vez que as crianças que evidenciaram de alguma forma conflitos nestes aspectos, também apresentaram indícios psicossomáticos como obesidade, bronquite, enurese, crises epiléticas, alergias, dermatites. Em situação de sofrimento psíquico o desafetado recria a ilusão primitiva de unidade corporal e mental com a figura da mãe que o torna incapaz de se distinguir do outro, produzindo angústia, que pode ser decodificada como ameaça biológica, criando condições favoráveis para o surgimento de somatizações.
1. INTRODUÇÃO
1.1 LEVANTAMENTO BIBLIOGRÁFICO
História da Psicossomática
O termo psicossomático surgiu no século passado, quando Heinroth criou as expressões psicossomáticas e somatopsíquica (MELLO FILHO, 1992). No entanto, somente em meados do século XX, através das contribuições pioneiras de Franz Alexander e da Escola de Chicago, a referência à relação mente e corpo continuou expressa na denominação “psicossomática”, sendo usada por estudiosos do fenômeno.
Para Alexander, o termo psicossomático deve ser usado apenas para indicar um método de abordagem, tanto em pesquisa quanto em terapia, ou seja, o uso simultâneo e coordenado de métodos e conceitos somáticos de um lado e métodos e conceitos psicológicos de outro. (ALEXANDER, 1989)
Ao refletir a relação entre mente e corpo, Dias (1992) começa a criticar o termo psicossomático. Afirma que é um termo muito utilizado, pois entrou no domínio do psiquiátrico e da medicina com tal amplitude que, ao criar um novo espaço de investigação, também o diluiu noutros espaços afins. Propõe que há necessidade de se interrogar quanto à inespecificidade do termo psicossomático e sua pertinência.
No entanto, o termo psicossomático pode reportar-se, tanto ao quesito da origem psicológica de determinadas doenças orgânicas, quanto às repercussões afetivas do estado de doença física no indivíduo, como até confundir-se com simulação e hipocondria, onde toma um sentido negativo. (DIAS, 1992 apud CARDOSO, 2004)
No sentido mais preciso, o termo circunscreve áreas específicas, quando se refere à medicina psicossomática, doenças psicossomáticas ou psicossomática. A denominação de medicina psicossomática, de acordo com seu campo epistemológico, é o estudo das relações mente-corpo com ênfase na explicação da patologia somática, uma proposta de assistência integral e uma transcrição para a linguagem psicológica dos sintomas corporais. (EKSTERMAM, 1992)
Sami-Ali (1995) ao refletir sobre a ligação entre o orgânico e o relacional, começa por distinguir medicina psicossomática e psicossomática. Assim, a medicina psicossomática é uma maneira de introduzir variáveis psicológicas num domínio que se define como orgânico, adicionando variáveis psíquicas às variáveis orgânicas. A psicossomática proposta por ele, no entanto, é um modelo teórico e uma metodologia específica, onde o somático é percebido em sua complexidade e não na falha psíquica.
O conceito de doença psicossomática, sua classificação e diagnóstico, é outra questão polêmica. No entanto, Alexander (1989) diz que, teoricamente, cada doença é psicossomática, uma vez que fatores emocionais influenciam todos os processos do corpo, através das vias nervosas humorais e que os fenômenos somáticos e psicológicos ocorrem no mesmo organismo e são apenas dois aspectos do mesmo processo.
Portanto, a designação de psicossomática, devido a seu esforço de delimitação e rigor no seu objeto e métodos, foi distanciando-se cada vez mais da medicina psicossomática. No entanto, isso não significa que se caminhe no sentido da síntese de um modelo psicossomático, e sim, situa-se numa “perspectiva específica no modo de encarar os fenômenos de doença”. E tampouco significa que com ela se tenha resolvido antigas questões do impasse das teorias monistas e dualistas da relação mente-corpo.
Considera-se também que a psicossomática e a psicanálise estão articuladas histórica e praticamente, mesmo que Freud, em momento algum tenha se preocupado em criar uma teoria psicossomática. Devido ao fato de seus conceitos fomentarem grandes discussões e fundamentarem inúmeros modelos, ele é considerado um dos percussores mais influentes nesta área. (CARDOSO, 2004).
Freud (1895) em seus estudos sobre a histeria aborda o componente somático do sintoma de um ponto de vista econômico e conceitualiza o fenômeno de conexão, a que atribui o sentido de expressão simbólica do conflito. (DIAS, 1976 apud CARDOSO, 2004)
Freud introduziu a expressão complacência somática para se referir à escolha da neurose histérica e à escolha do órgão ou do aparelho corporal sobre o qual se dá a conversão, onde o corpo ou um órgão específico facilitaria a expressão simbólica do conflito inconsciente. (LAPLANCHE E PONTALIS, 2008)
A noção de complacência somática é constituída por um objeto de controvérsia por aqueles que defendem o não simbolismo ou a estupidez do sintoma e da escolha do órgão contra os que acreditam no seu valor simbólico (CARDOSO, 2004).
Ao tentar articular o somático e o psíquico, Freud faz a distinção entre as psiconeuroses e as neuroses atuais, contribuindo sobremaneira a algumas teorias psicossomáticas. Os conflitos da psicanálise para a teoria psicossomática são valiosos, uma vez que, qualquer que seja o momento de sua elaboração, a teoria psicossomática permanece estreitamente ligada à psicopatologia e mais especialmente à noção de psiconeurose. (SAMI-ALI, 1995)
Psicossomática Infantil
É possível dizer que quase todas as doenças infantis foram abordadas no plano psicossomático; tanto afecções que podem ser produzidas por uma emoção, quanto distúrbios afetivos de origem lesional bem precisa, ou mesmo malformações e, por fim, doenças psicossomáticas propriamente ditas. (AJURIAGUERRA, 1997)
Para Ajuriaguerra (1997) as doenças psicossomáticas são caracterizadas por uma desorganização somática, passageira ou permanente, cuja gênese ou desenvolvimento implicam um determinismo de ordem psicológica, quer atual, quer de ordem regressiva, que põe em evidência organizações psicobiológicas precoces.
A autora enfatiza que, do ponto de vista do desenvolvimento, a manifestação psicossomática é a expressão do organismo através de um órgão ou uma função, não sendo conseqüência nem do acaso nem de uma reação especifica, mas, resultado da conjuntura na linha histórica do desenvolvimento de fatores diacrônicos e sincrônicos que se manifestam na realização funcional.
Contudo, a verdadeira psicossomática da criança só pode ser feita estudando-se seu desenvolvimento e suas diferentes fases, tendo em conta que a criança é imatura ao nascimento, necessariamente dependente de seu meio, evoluindo progressivamente para novas organizações que irão adquirir valores bem diferentes. (FAIN, 1955 apud AJURIAGUERRA, 1997)
McDougall (1983) acredita que as perturbações psicossomáticas se devem à incapacidade de o sujeito elaborar mentalmente uma situação, isto é, que o sujeito atua na enfermidade por não ter capacidade de viver a situação psiquicamente. O seu ato substituiria a possibilidade de um trabalho psíquico e configuraria uma falha na elaboração mental, ou poderia ser entendido como uma evacuação da dor mental através do ato. Em suma, considera as manifestações psicossomáticas uma reação ao sofrimento psicológico.
Para Ajuriaguerra (1997) só será possível compreender a psicossomática infantil levando-se em conta:
- O desenvolvimento das emoções e dos afetos e sua importância na organização da personalidade.
- O papel representado pelo cuidador da criança na expressão de suas emoções e afetos.
- O papel do precoce mundo interno de fantasias em que os órgãos funcionantes podem tanto fazer parte deste mundo próprio da criança como também serem confundidos com o mundo exterior. O sistema visceral é o campo nos quais os mecanismos de introjeção se desenvolvem muito precocemente. (AJURIAGUERRA, 1997)
Relação Mãe-Bebê
Segundo Winicott (1988), o primeiro contato do ser humano com o outro é a relação do bebê com a mãe, sendo que a noção de dois para o bebê ainda não existe. Ele não percebe a relação como sendo de duas pessoas. Se as condições para esse bebê a se desenvolver forem favoráveis, este irá se distinguir como um ser individual. (apud MAROT, 1995)
Winicott (1988, apud MAROT, 1995) designa condição e ambiente favorável como aquele em que a mãe é suficientemente boa; configura-se uma relação de sincronia entre bebê e mãe. Para complementar a afirmação de Winicott, Marot (1995) se baseia em Mahler (1975), que postula que a relação do bebê com a sua mãe ou com uma pessoa que faça o papel de mãe, traz em si a condição para que o bebê possa vir a ter uma existência psicossomática, e isto ocorre quando o corpo infantil está em contato com o corpo e o psiquismo da mãe.
Mc Dougall (1982, apud Marot 1995) refere-se à relação mãe-bebê como sendo um envolvimento sensual primitivo e define:
“(…) esse envolvimento sensual primitivo é a condição prototípica da sobrevivência psíquica… é um momento mítico, primordial, na estruturação psíquica do pequeno indivíduo que virá, pois existe apenas a interpretação materna das necessidades de seu filho, para fazer desse corpo biológico um corpo pulsional (…)” (1982, p. 177).
Baseado na reflexão de Mc Dougall (1983), Marot aponta que o corpo infantil que esteve contido no corpo da mãe vai criando um aparelho psíquico, capaz de vivenciar afetos. Sem esta possibilidade, os afetos não poderiam ser sonhados, sentidos e pensados; ficariam aprisionados no soma. (MAROT, 1995)
Marot (1995) cita que os estudos de Mc Dougall (1983) vêm demonstrando que, pacientes adultos com distúrbios psicossomáticos, trazem em si ilhas de um funcionamento psique-soma, que são frutos das etapas primitivas do desenvolvimento infantil. Essas etapas estariam onde o bebê vive com a sua mãe em um estado de fusão, isto é, neste período de desenvolvimento, o meio em que o bebê vive é a própria mãe; é uma situação de indiferenciação com o meio e o bebê, se expressa somaticamente, pois não tem outra forma para tal; não dispõe de um aparelho psíquico estruturado para lidar com as sensações arcaicas. Ele precisa do outro para lhe dar continência. As manifestações psicossomáticas precoces situam-se na relação mãe-bebê. Segundo Marot (1995), essas manifestações são as alterações funcionais dos vários órgãos e sistemas que surgem no primeiro ano de vida.
Marot (1995), em sua tese, cita Mahler (1975) reafirmando a importância do vínculo materno-infantil no desenvolvimento psicossomático do indivíduo, considerando que, a matriz inicial de onde se desenvolve o psiquismo infantil está na relação mãe-bebê.
Nos primeiros meses de vida, o bebê depende totalmente da mãe, sendo a mãe quem o ajudará no equilíbrio homeostático que fixa as bases para a integração egóica e futuras relações objetais. Nesses primeiros meses de vida, o bebê não diferencia os cuidados maternos que alivia as suas necessidades de suas próprias tentativas para reduzir as tensões como urinar, defecar, tossir, cuspir, espirrar. Somente as necessidades fisiológicas predominam. O bebê consegue apenas diferenciar a experiência “boa” da “má”. (MAHLER, 1975 apud MAROT, 1995)
É a partir da metade do primeiro ano que ocorre um deslocamento de catexias que, inicia a criança no processo de separação-individuação. Uma grande parte de catexia se desloca da órbita simbiótica para as funções egóicas do bebê, como locomoção, percepção e aprendizagem. Esse processo de separação se configura na consciência da realidade do mundo externo, que ocorrem em quatro subfases (MAHLER, 1975 apud MAROT, 1995). Os autores definem as fases:
a) Diferenciação
b) Exploração ou treinamento
c) Reaproximação
d) Início da constância objetal
a) Diferenciação
Inicia-se no quinto ou sexto mês. É a fase na qual o bebê tem uma diminuição da dependência corporal da mãe. A criança busca satisfação no uso de seu corpo e nos estímulos externos.
b) Exploração ou Treinamento
Inicia-se a partir dos nove meses de idade indo até o décimo quinto mês. Há um maior desenvolvimento motor da criança e aumento de exploração do ambiente.
A criança está a caminho da individuação.
c) Reaproximação
Acontece entre os quatorze e os vinte e dois meses de idade.
A criança já tem maior desenvolvimento motor e cognitivo e tem maior consciência da separação física da mãe, o que gera grande ansiedade. Nesta fase a criança vive em conflito constante entre os desejos de separação e aproximação. Nesta fase também se inicia a comunicação verbal.
d) Constância objetal
Caracteriza-se entre os vinte e dois e os trinta meses de idade, havendo rápida diferenciação do ego e grande desenvolvimento das funções cognitivas. Esta fase é caracterizada pela consolidação da individuação e pelo início da constância do objeto emocional; é um processo lento e envolve todos os aspectos da vida psíquica; implica na unificação do objeto “bom” e “mau” na mesma representação mental.
Marot (1995) refere-se à Winicott (1952) para explicar a trajetória da dependência absoluta da criança rumo à independência. Para Winicott (1952, apud MAROT, 1995), as provisões ambientais favoráveis facilitam o desenvolvimento da criança e, então, o centro do ser se desloca da organização total para o indivíduo.
Segundo Marot (1995), Winicott (1964, 1963) refere que todo bebê humano traz consigo tendências hereditárias, um impulso biológico para o desenvolvimento, incluindo o que ele designou como “processos de maturação”, que levam a criança de um estado de dependência absoluta do ambiente ao caminho da independência.
Os processos de maturação dependem para a sua efetivação de um ambiente favorável, denominado “ambiente de facilitação”, que inclui, num primeiro momento, a mãe com a sua capacidade empática de adaptação às necessidades do bebê. A trajetória da criança à independência diz respeito à revelação do potencial herdado de desenvolvimento através da facilitação materna (WINICOTT, 1964, apud MAROT, 1995).
Desafetação
Freud propôs que o comportamento pode substituir a linguagem e o pensamento, promovendo a descarga das tensões satisfatoriamente. Também para Freud, a relação da mãe com a criança aponta que o modo de funcionamento psíquico se encontra relacionada a desarmonias afetivas ocorridas na primeira infância no qual a mãe pode ter desenvolvido um desempenho inapropriado, excessivo ou insuficiente. Indivíduos operatórios foram educados por mães autoritárias, deprimidas, negligentes, superprotetoras, ou por outro motivo não foram capazes de proteger seus filhos das tensões no início da vida (MARTY, 1993).
Pierry Marty e Joyce McDougall se destacam como contribuidores para a compreensão da psicossomática psicanalítica, corroborando os propósitos de Freud e apresentando conceitos que ainda não foram totalmente incorporados à psicanálise: pensamento operatório e desafetação. (MONTAGNA, 1998 apud PERES, 2006)
Marty (1993) emprega o termo “pensamento operatório” a pacientes-somáticos que estabeleçam vínculos afetivos pouco significativos e relacionam-se de modo superficial e comumente apresentam um funcionamento psíquico que se situa entre a neurose e a psicose. (apud PERES, 2006)
Para McDougall (1996), pacientes somáticos apresentam uma baixa capacidade em elaborar afetos desestruturantes em seu psiquismo e utilizam estratégias defensivas arcaicas para evitar o surgimento de emoções que fujam do seu controle. Essas defesas são adotadas de forma inconsciente e envolvem a exclusão de representações cheias de sentimentos intoleráveis. Os indivíduos em questão simplesmente “ejetam” os afetos do próprio aparelho mental. Considerando as particularidades desses processos de proteção, McDougall (1983) propõe que os mesmos não devem ser comparados à repressão, pois não são executados conscientemente, nem tampouco ao recalque, pois não transformam emoções em material inconsciente. Por tal raciocínio, a tendência a “ejetar” do próprio psiquismo percepções, fantasias e pensamentos associados a afetos em seus aspectos principais, aproximam-se de um mecanismo de defesa. (apud PERES, 2006)
Esse recurso promove a exclusão de sentimentos do plano da consciência e também leva o indivíduo a agir como se nunca tivesse tido acesso a tais conteúdos repudiados. Assim, McDougall (1996) propõe que os afetos “ejetados” do aparelho mental de pacientes somáticos não geram como subproduto alucinações ou delírios, porém, se perdem sem serem compreendidos psiquicamente. Como conseqüências tendem, ao contrário do que ocorre com os psicóticos, a serem reduzidos à sua pura expressão somática. Ou seja, a utilização desse expediente pode promover uma cisão entre o corpo anatômico e o corpo erógeno, resultando na ressomatização do afeto. (apud PERES, 2006)
Assim, McDougall (1996) defende que as emoções podem efetivamente desaparecer do aparelho psíquico mediante a expulsão do plano consciente de pensamentos, fantasias e representações associadas a afetos capazes de provocar sofrimento em contrapartida ao que sugerem os pressupostos clássicos meta psicológicos, sendo que, a aplicação desta estratégia de defesa pode produzir um distúrbio da economia afetiva.
Desta forma, McDougall (1989) cria o termo “desafetação” para fazer referência a esse distúrbio. O prefixo “des” sugere separação, perda ou desligamento. Assim, a composição do termo indica, por si só, que a patologia em questão cita o rompimento do indivíduo com seus próprios sentimentos. A desafetação, com efeito, leva o indivíduo a encontrar dificuldades para apreender contrastes emocionais e discriminar tanto seus afetos quanto os das demais pessoas com as quais convive, levando-o a estabelecer vínculos pouco consistentes. (apud PERES, 2006). Contudo, em situações de sofrimento psíquico, o indivíduo desafetado pode manter relações fusionais com o intuito de recriar a ilusão primitiva de unidade corporal e mental com a figura da mãe. (apud PERES, 2006)
Essa ilusão possibilita ao bebê sobreviver às tensões, devido à crença da existência de apenas um corpo para dois seres vivos, o que tende a tornar o indivíduo gradativamente incapaz de distinguir a si mesmo do outro. Por esse motivo, produz o surgimento de angústias psicóticas que podem ser decodificadas como ameaças biológicas e criar condições favoráveis para o surgimento de somatizações. Estas estimulam o corpo a se pronunciar mediante a utilização de poucos recursos defensivos dos quais dispõe. (apud PERES, 2006)
Segundo Cain (2001), a desafetação leva o indivíduo a encontrar nos atos e, não no trabalho mental a única possibilidade de evasão para as tensões. Tais atos se parecem principalmente com os movimentos de exteriorização desprovidos de valor simbólico. A partir desse raciocínio, Mc Dougall (2001) diz que os desafetados procuram compensar com um “agir compulsivo” a deficiência da simbolização que os caracteriza. Essa compensação, contudo, pode se tornar um “ato-sintoma” e agir sobre o corpo, pois este é percebido como um objeto alheio ao psiquismo pelos indivíduos em questão. (apud PERES, 2006)
Para Mc Dougall (2001), perturbações relacionais da relação mãe-bebê se destacam como o fator etiológico principal da desafetação. Partindo do princípio de que a figura materna tenha como função principal proteger seu filho das tensões provenientes do mundo exterior, tendo que interpretar a comunicação primitiva e nomear os estados afetivos de seu bebê, promovendo assim a progressiva dessomatização do aparelho mental. O bom desempenho dessa tarefa fornece o acesso da criança à palavra e favorece o desenvolvimento da capacidade de simbolização. (apud PERES, 2006)
É importante ainda destacar que, para McDougall (2001), não se deve associar indiscriminadamente a desafetação à somatização, sendo que qualquer indivíduo pode apresentar sintomas corporais quando as excitações às quais é exposto fogem de seu controle, porém, ao sujeito que não é portador desse distúrbio da economia afetiva, somatiza-se somente em situações extremas, que tornam incapaz o emprego de mecanismos de defesa menos radicais do que a expulsão para fora do ego. Os desafetados, ao contrário, tendem a “ejetar” da consciência qualquer sentimento que possa ser desestruturante e, em conseqüência, são incitados a apresentar reações orgânicas frente ao sofrimento mental mais intensamente e com maior freqüência. (MCDOUGALL, 2001 apud PERES, 2006)
Marty (1993) através da execução de investimentos libidinais arcaicos e, McDougall (1991) através de recursos defensivos primitivos, concordam que esses mecanismos podem produzir sintomas corporais em pacientes somáticos, em função disso, eles entendem que as afecções orgânicas potencializadas pelo pensamento operatório ou pela desafetação, são manifestações sem valor simbólico, portanto os indivíduos que utilizam cada qual o artifício em questão, favorece o aparecimento de enfermidades mais severas e com tais características possuem uma maior vulnerabilidade psicossomática acentuada em comparação a outros que apresentam sintomas orgânicos ocasionais. (MARTY, 1993, MCDOUGALL, 1991 apud PERES, 2006)
Finalmente, destaca-se que, segundo Peres (2006), Marty e McDougall corroboram que, situações em que a figura materna não cumpre a função de pára-excitação, os sinais pré-verbais que o bebê emite não são integrados em um código lingüístico. As experiências que a criança vive não serão devidamente simbolizadas e seu corpo se apresentará como um caminho para exteriorização de seus conflitos, gerando o desenvolvimento de somatizações, ou seja, para ambos, o corpo anatômico se torna erógeno como resultado de um complexo processo que tem início nos primeiros meses de vida.
1.2 OBJETIVO GERAL
O presente trabalho tem como objetivo, investigar a relação da criança com a família, em especial com a mãe, e o desencadeamento de uma possível desafetação e de indícios psicossomáticos.
1.3 OBJETIVO ESPECÍFICO
- Verificar quais são os aspectos da relação mãe-bebê presentes em casos de possíveis indícios psicossomáticos nas crianças.
- Identificar se os aspectos que envolvem a desafetação relacionam-se com os indícios psicossomáticos.
1.4 HIPÓTESE
A relação mãe-bebê é fundamental para o desenvolvimento da criança, pois na primeira infância, são fornecidas as bases para o desenvolvimento da saúde mental do indivíduo. A mãe é responsável em fornecer o ambiente favorável para o desenvolvimento psíquico da criança. Na perturbação relacional entre mãe – bebê, a criança encontra dificuldade para discriminar seus afetos das demais pessoas. Assim, promove condições favoráveis para o surgimento de somatizações.
1.5 JUSTIFICATIVA
Ao selecionar o tema, nos pautamos nos fatores que podem estar inter-relacionados entre possíveis indícios psicossomáticos e desafetação de crianças com suas figuras parentais, visto que em nossos atendimentos na Clinica de Psicologia Aplicada da UNIP de Araraquara, percebemos que alguns relatos das mães atendidas em psicodiagnóstico, suscitaram que as crianças apresentavam sintomas com indícios de distúrbios psicossomáticos. Consideramos também, que a importância social deste trabalho, está no sentido de proporcionar uma orientação aos pais sobre a importância do afeto no desenvolvimento psíquico e biológico da criança.
2. MÉTODOS
2.1 SUJEITOS
Foram sujeitos desta pesquisa 08 crianças de 06 a 10 anos de idade, atendidas entre os anos de 2005 a 2008, no Centro de Psicologia Aplicada da UNIP de Araraquara em psicodiagnóstico, analisados através de seus prontuários, conforme indicado na Tabela 1.
|
PRONTUÁRIO |
1 |
2 |
3 |
4 |
5 |
6 |
7 |
8 |
|
IDADE DA CRIANÇA |
08 |
06 |
08 |
09 |
10 |
08 |
08 |
08 |
|
SEXO |
M |
M |
M |
F |
F |
F |
F |
F |
|
RELACIONAMENTO DOS PAIS |
Viúva |
Separado |
Casado |
Viúva |
Casado |
Casado |
Separados |
Casados |
|
NÚMERO DE FILHOS |
2 |
1 |
2 |
2 |
1 |
3 |
03 |
02 |
|
ALGUM ADOTIVO |
Não |
Não |
Não |
Não |
Não |
Não |
Não |
Não |
|
HOUVE ABORTO |
Não |
Não |
Não |
Não |
Não |
3 |
Não |
Não |
|
PARTO |
Cesariano |
Cesariano |
Cesariano |
Cesariano |
Cesariano |
Cesariano |
Cesariano |
Cesariano |
Tabela 01 – Caracterização da Amostra
2.2 INSTRUMENTOS
A análise dos prontuários foi realizada a partir de um roteiro de investigação (anexo 01), para levantar os dados que indicassem a relação da criança com a família, em especial, com a mãe e o desencadeamento de uma possível desafetação e de indícios psicossomáticos.
2.3 PROCEDIMENTOS
Entramos em contato com o Centro de Psicologia Aplicada da UNIP Araraquara, para as devidas autorizações. Pedimos à supervisora de triagem para separar os prontuários que foram escolhidos aleatoriamente, respeitando a idade e o ano de atendimento, conforme descritos anteriormente. Foram analisados os oito prontuários da mesma forma, seguindo, nessa avaliação, o roteiro de investigação (anexo 1) e tendo como base a leitura completa de cada prontuário.
Os dados obtidos foram agrupados de acordo com o roteiro de investigação para facilitar a análise dos mesmos.
3. Resultados
A análise dos prontuários, a partir do objetivo do presente trabalho, nos permitiu verificar as relações da criança com seus pais e com outras pessoas do seu convívio, de forma a qualificar os vínculos afetivos existentes e a presença de indícios psicossomáticos. Os dados foram resumidos e podem ser observados na tabela 2.
|
PRONTUÁRIOS |
1 |
2 |
3 |
4 |
5 |
6 |
7 |
8 |
|
Reação da mãe frente ao nascimento |
Muito feliz |
Feliz (engravidou aos 17 anos e até o 3 mês teve dificuldade em aceitar a gravidez). |
Aliviada; esperava uma menina, mas não se frustrou por ser menino. |
A criança não foi planejada, a mãe ficou muito nervosa, teve muito sono e depressão pós- parto. |
Muito feliz |
Feliz. Embora ficasse desapontada com o sexo da criança. |
Feliz |
Feliz |
|
Reação do pai frente ao nascimento |
Emocionado |
Feliz |
Emocionado |
Feliz |
Inseguro |
Feliz |
Com neutralidade |
Sempre agressivo |
|
Reação da mãe na primeira mamada |
Insegura |
Inicialmente teve receio em não ter leite, conseguiu amamentar somente 7 dias, pois seu leite secou. |
Insegura |
Insegura, não queria deixar a filha sozinha (ficava com a criança no colo). |
Sentiu muita dor. |
Difícil para pegar o peito. |
Boa |
Boa (amamentou até o 5 mês, devido a depressão). |
|
Vínculos afetivos |
Fortemente estabelecido com a mãe |
Aparenta dificuldade para estabelecê-los, isola-se jogando videogame, não conversa com a família, mostra-se tímido. |
Aparenta dificuldade para estabelecê-los, não verbaliza a falta que sente do pai, mesmo este sendo presente. |
Fortemente estabelecido com a mãe |
Apresenta vinculo; e esporadicamente encontra-se como cuidadora da mãe. |
Fortemente estabelecido com a mãe. O pai é ausente. |
Fortemente estabelecido com a mãe, porem, o pai mostra-se indiferente com o filho. |
Não há indícios de vínculos afetivos com os pais, devido aos conflitos familiares. |
|
Relação afetuosa com a mãe |
Tem ótimo relacionamento, são bem próximos e a mãe ocupa o centro de família. |
Relação com a mãe parece confusa. Convive como irmãos, a chama pelo nome e chama a avo de mãe. |
Tem ótimo relacionamento, são bem próximos. O filho sempre recorre à mãe em momentos de rejeição do pai. |
Relação de extrema dependência com a mãe, pois não consegue ficar longe dela. |
Tem bom relacionamento com a mãe, embora a criança a perceba como “frágil”. |
Tem relação de dependência com a mãe. |
Tem relação de confiança com a mãe. |
A criança apresenta uma baixa capacidade em elabora afetos com a mãe. |
|
Simbolização de afetos |
Tem dificuldade em simbolizar e expressar os seus sentimentos. Reproduz o que “aprende” com a mãe |
Não expressa seus sentimentos nem suas necessidades básicas, tendo que ser alimentado na boca. |
Tem dificuldade em simbolizar e expressar os seus sentimentos, em especial os sentimentos ligados ao pai. |
Tem dificuldade em simbolizar e expressar os seus sentimentos, devido a superproteção da mãe. |
Expressa bem seus sentimentos com o pai e amigos. Com a mãe, seus afetos apresentam-se confusos. Pois a criança se sente responsável pelos cuidados com a mãe. |
Aparentemente expressa bem seus sentimentos com a mãe, porem, a criança faz com que mãe sempre reafirme seus sentimentos por ela. |
Expressa bem seus sentimentos com a mãe. Sabe nomear a falta que sente do pai. |
Expressa seus sentimentos, porém, tem baixa capacidade em elaborar afetos. Extremamente agressiva com os pais. |
|
Estratégias defensivas que evitem o contato com emoções |
Demonstra ansiedade e fala muito. |
Tem desmaios. Não se alimenta sozinho. |
Em ambiente familiar ele fica quieto e chora. |
Não se dispõe as atividades, abaixa a cabeça e coloca a mão sobre o rosto. |
Esconde-se no quarto para chorar. |
Tem falta de atenção. |
Não quer conhecer a namorada do pai. |
Comporta-se agressivamente. |
|
Vida escolar |
Desatenção; excesso de conversa; não lê bem. |
Adaptado na escola. |
Desatento; conversa bastante e tem dificuldade em matemática e português. |
Segundo a mãe a criança apresenta “lentidão” no aprendizado. Já para a professora, a criança é boa aluna. |
Bom desempenho em todos os quesitos. (a melhor aluna da sala). |
A criança é agressiva com os alunos, pois sofre com os apelidos sobre seu peso. Desatento. |
Dificuldade em matemática. |
A criança apresenta dificuldades de aprendizado e baixa auto-estima (sente-se burra). |
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Indícios psicossomáticos |
Obesidade |
Pneumonia; bronquite alérgica e sinusite. |
Enurese noturna |
Crises de epilepsia e convulsões. (toma remédio Gardenal) |
Não |
Obesidade. |
Renite alérgica; Dermatite (manchas no corpo). |
Não apresenta indícios psicossomáticos; mas distúrbios de personalidade. |
Tabela 02 – Categorização dos resultados
3.1 Reação da mãe frente ao nascimento
Notou-se, que na maior parte dos relatos, houve sentimentos de felicidade e emoção, porém, em alguns relatos ocorreram dificuldade em aceitar a gravidez, frustração em relação ao sexo do bebê e depressão pós-parto frente ao nascimento da criança.
3.2 Reação do pai frente ao nascimento
Ocorreram sensações de felicidade e emoção, sendo que um deles apresentou neutralidade e o outro agressividade.
3.3 Reação da mãe na primeira mamada
A maioria das repostas configuraram-se em dificuldades; o manejo com esse primeiro contato revelou-se com aspectos de insegurança e dor. Dois relatos apresentaram sensações boas.
3.4 Vínculos afetivos
A maioria das crianças apresentou vínculos fortemente estabelecidos com a mãe e em três relatos apresentaram dificuldades na vinculação afetiva, estando relacionados ao não reconhecimento dos papéis parentais e ausência de vínculo com ambos os pais.
3.5 Relação afetuosa com a mãe
Quanto aos indícios de relação afetuosa entre a mãe e a criança, encontramos particularidades nos relatos como: proximidade, sendo que a mãe ocupa o centro da família; relacionamento confuso da criança à figura materna devido a troca de papéis entre a mãe e a avó; bom relacionamento com a mãe; relação de dependência com a mãe; relações afetivas conflituosas e agressivas.
3.4 Simbolização de afetos
Segundo os relatos dos prontuários pesquisados, algumas crianças apresentaram dificuldades na expressão dos sentimentos e simbolização de afetos com as pessoas de seu convívio, no entanto, outras expressam seus sentimentos e apresentam agressividade.
3.5 Estratégias defensivas que evitem o contato com emoções
Todos os prontuários pesquisados apresentaram diferentes manejos de defesa como: ansiedade, desmaios, choro, isolamento, falta de atenção, ciúmes e agressividade.
3.6 Vida escolar
As crianças apresentaram em sua maioria desatenção, por exemplo, conversar bastante, agitação, baixa concentração com dificuldade em algumas matérias. Somente duas crianças apresentaram bom rendimento escolar.
3.7 Indícios psicossomáticos
Observou-se que na maioria dos casos analisados, há os indícios: obesidade, pneumonia, bronquite alérgica e sinusite, desmaios, enurese. Em apenas dois casos não foram encontrados os indícios.
4. Discussão
Propusemos como objetivo do nosso trabalho, um estudo a partir da análise dos prontuários da Clínica de Psicologia da UNIP de Araraquara, para investigarmos a relação de afeto da criança com a família, principalmente com a mãe, e o desencadeamento de possíveis distúrbios psicossomáticos.
Para compreender a psicossomática infantil foi preciso observar o desenvolvimento dos sentimentos e afetos e sua importância na personalidade das crianças analisadas. Os aspectos psicossomáticos instalados precocemente nas crianças analisadas, partem da relação mãe – criança e refere-se às alterações funcionais físicas e dos sistemas psicológicos, que surgem no primeiro ano de vida.
Partindo desse pressuposto, a pesquisa dos prontuários considerou os dados desde o nascimento da criança, os primeiros contatos com os cuidadores, sendo que estes são fundamentais para o desenvolvimento do processo de valores e organizações psíquicas. Os relatórios das sessões abriram as possibilidades de analisarmos como a criança vive no momento em que é trazida ao atendimento psicológico e como se estabelece a relação com os cuidadores.
O bebê ao nascer, não diferencia os cuidados maternos que aliviam as necessidades de suas próprias tensões.
É função da mãe, auxiliar a criança no equilíbrio homeostático, que fixará as bases da integração egóica e futuras relações objetais ao proporcionar um ambiente favorável, de facilitação, para que a criança passe do estado de dependência absoluta ao caminho da independência, favorecendo o processo de maturação, sendo que, este é fundamental para que as experiências da criança sejam devidamente simbolizadas.
Estabelecemos a necessidade de observarmos a família desde o inicio da gestação. Por isso, perceber a mãe desde a gravidez foi necessário para analisar se algo ameaçaria a relação mãe–bebê e um possível indício psicossomático. Segundo Ajuriaguerra (1997), as afecções podem ser produzidas por emoções, distúrbios afetivos ou doença psíquica propriamente dita, que são caracterizadas por desorganizações somáticas, passageiras ou permanentes, cuja gênese ou desenvolvimento são de ordem psicológica, atual ou regressiva.
Encontramos durante a pesquisa, reações frente ao nascimento da criança e relações referente à primeira mamada que foram fundamentais para o desenvolvimento estrutural psíquico do indivíduo.
Observamos ainda que os vínculos afetivos das crianças foram, em sua maioria, estabelecidos com a mãe, parecendo-nos que esta, em seu contato com a criança, visava suprir não às necessidades reais da criança, mas suas próprias necessidades, impedindo o desenvolvimento da independência de seus filhos, por fazerem tudo por eles.
Na relação afetuosa com a mãe na maioria dos casos, apesar de mostrar-se positiva, notou-se que a mesma, ao acolher as necessidades psíquicas da criança, também impedia que esta verbalizasse seus sentimentos, tornando-se dependente dela. Talvez isto justifique a simbolização de afeto observada.
A vida psíquica da criança é conseqüência do processo de maternagem. A mãe pode desenvolver uma atitude superprotetora, criando um ambiente não favorável para o desenvolvimento dos vínculos afetivos e relações afetuosas significativas para a criança. Quando esta não estabelece vínculos consistentes, pode encontrar dificuldades para discriminar seus afetos com os afetos das demais pessoas com as quais convive, o que foi averiguado através da vida escolar, na qual foram percebidas dificuldades no contato social, na adaptação à novos ambientes, à novas exigências e à regras.
A experiência que a criança vive não devidamente simbolizada, tornará seu corpo como um caminho para a exteriorização de seus conflitos, tendo a possibilidade do desenvolvimento de somatizações. As mobilizações psíquicas que fogem ao controle da criança são utilizadas como estratégias defensivas.
A baixa capacidade em elaborar afetos desestruturantes em seu psiquismo, induz o indivíduo a utilizar defesas arcaicas que ejetam esses afetos para fora do aparelho mental. Esta estratégia pode produzir um distúrbio da economia afetiva, classificado como desafetação. (Mc Dougall, 2001). Nas crianças analisadas, foi possível perceber a integração entre a relação mãe-bebê, o ambiente favorável proporcionado pela mãe, o desenvolvimento do afeto, dos vínculos, da capacidade de simbolizar afetos e as estratégias defensivas, como a desafetação e o desenvolvimento de indícios psicossomáticos, uma vez que as crianças que evidenciaram de alguma forma conflitos nestes aspectos, também apresentaram indícios psicossomáticos como obesidade, bronquite, enurese, crises epiléticas, alergias, dermatites.
Assim, confirma-se que, em situação de sofrimento psíquico, o desafetado recria a ilusão primitiva de unidade corporal e mental com a figura da mãe que o torna incapaz de se distinguir do outro, produzindo angústia, que pode ser decodificada como ameaça biológica, criando condições favoráveis para o surgimento de somatizações.
5. CONCLUSÃO
Concluímos que as crianças que apresentaram indícios de distúrbios psicossomáticos na infância correlacionam-se com uma possível desafetação na relação mãe – bebe. Neste caso, crianças com uma relação frágil podem disparar indícios de somatizações desde muito pequenas.
A pesquisa vem a confirmar a hipótese, de que a relação mãe-bebê é fundamental para o desenvolvimento psíquico da criança, pois na primeira infância são fornecidas as bases para a formação, sendo que a mãe tem a função primordial de proteger o bebe das tensões provenientes do mundo externo, interpretando as comunicações primitivas e nomeando-as.
Na análise dos prontuários, pudemos observar que o processo de maturação ocorreu com déficits, sendo que o ambiente proporcionado às crianças não foi integralmente favorável ao seu desenvolvimento psíquico e à sua individuação. De acordo com a pesquisa, as crianças apresentavam, naquele momento, em que passavam pelo atendimento, vestígios do processo de desafetação, os quais pressupõe se que estejam relacionados aos indícios psicossomáticos.
A contribuição do trabalho à psicologia, é de alertar a necessidade de se propiciar orientação aos pais e/ou cuidadores a despeito da importância do afeto no desenvolvimento psíquico e biológico da criança, desde o nascimento.
Notamos a importância dos prontuários, pois estes colaboraram de maneira significativa para a nossa pesquisa. De maneira a acrescentarmos relevância na padronização dos documentos, dos registros dos pacientes, tendo ampliado a compreensão dos relatos.
Esperamos que o presente estudo possa contribuir com futuras pesquisas científicas, auxiliando os profissionais psicólogos e estudantes de psicologia a compreenderem o processo de desafetação e a relação entre o desafeto e as doenças psicossomáticas nas crianças.
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- AJURIAGUERRA, J.: Manual de Psiquiatria Infantil. 2ª edição, São Paulo, Toray-Masson, 1997.
- ALEXANDER, F. Medicina psicossomática: princípios e aplicações. Porto Alegre; Artes Médicas, 1989.
- CARDOSO, L. M. A: Ensino Aprendizagem de Psicopatologia: Um projeto coletivo: São Paulo; Casa do Psicólogo, 2004.
- EKSTERMAN, A: Medicina Psicossomática no Brasil: In. J. Mello Filho (Org.), Psicossomática hoje. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1992.
- LAPLANCHE, J; PONTALIS, J B: Vocabulário da psicanálise: 4ª edição, São Paulo, Martins Fontes, 2008.
- MAROT, H. P. Romano. A relação mãe-bebê e as manifestações psicossomáticas precoces. São Paulo,Casa do Psicólogo, 1995.
- MARTY, P. A psicossomática do adulto. Porto Alegre; Artes Médicas, 1993.
- MCDOUGALL, J.; Em defesa de uma certa anormalidade. Porto Alegre, Artes médicas, 1983.
- MC DOUGALL, J., Loriod, J. & Caïn, J. (Orgs.): Corpo e história. São Paulo, Casa do Psicólogo, 2001.
- MELLO FILHO, J: Psicossomática hoje. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992.
- PERES, R. S. A exclusão do afeto e a alienação do corpo. São Paulo, Vetor, 2006.
- PERES, R. S. O corpo na psicanálise contemporânea: sobre as concepções psicossomáticas de Pierre Marty e Joyce McDougall. Psicol. clin. [online]. 2006 vol. 18, no. 12008- [11-02], pp. 165-177. Site Scielo, 14/04/2008.
- PINTO, M. C.; Livro de ouro da psicanálise; Rio de Janeiro, Ediouro, 2007.
- SAMI-ALI: Pensar o somático: imaginário e patologia, distúrbio do comportamento: São Paulo, Casa do Psicólogo, 1995.
- WINNICOTT, D. W.: O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro, Editora Imago, 1975.
- WINNICOTT, D. W.: Textos selecionados: Da pediatria à psicanálise: Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1978.
7. ANEXOS
7.1 ROTEIRO DE INVESTIGAÇÃO
Idade:
Sexo:
Relacionamento dos Pais – Casados Amasiados Separados Sem contato
Nº de filhos, idade e sexo:
Algum filho adotivo:
Houve algum aborto? Natural Provocado
Em relação ao parto:
O parto foi: Natural Fórceps Cesariano
Como a mãe reagiu ao nascimento do filho?
Como foi a reação da mãe ao receber o filho para a primeira mamada?
Como foram as primeiras reações do pai?
Existe alguma observação importante com relação à vida escolar da criança?
Em relação à psicossomática e a desafetação:
Quais as doenças, problemas de saúde que a criança já teve? E ocorreu intervenção de algum profissional em relação à queixa?
Há indícios psicossomáticos?
O paciente estabelece vínculos afetivos significativos?
Ele utiliza estratégias defensivas para evitar o surgimento e emoções que fujam do seu controle?
O paciente apresenta dificuldade em discriminar seus afetos, diante as pessoas com as quais convive? Leve em consideração o estabelecimento de vínculos.
As experiências das quais os pacientes vivem são devidamente simbolizadas?
Há indícios nos relatos da mãe da relação afetuosa com a criança?
A mãe estabelece vínculos afetivos significativos com a criança?
Em relação ao comportamento da criança, como aparece a relação da mesma com sua mãe?
One Response to “Psicossomática e Desafetação: A relação entre o desafeto e as doenças psicossomáticas nas crianças – Uma análise de prontuários.”
gostei da vossa esperiência
By lirio miguel félix on Oct 5, 2011