PESQUISA CIENTÍFICA EM PSICOLOGIA HOSPITALAR: PLANTÃO PSICOLÓGICO

May 1, 2010 – 2:32 pm

Pesquisa Científica em Psicologia: Tema: Plantão Psicológico

Autor: Flávia Milani de Paula RA: 743657-2

Supervisor: Oliver Zancul Prado CRP: 06/55700-1

UNIP – UNIVERSIDADE PAULISTA – CENTRO DE PSICOLOGIA APLICADA – CPA - Araraquara – 2009

Plantão Psicológico

Introdução

A palavra Plantão segundo o dicionário Aurélio (2000), significa: horário de serviço escalado para determinado profissional exercer suas atividades em delegacias, hospitais, etc.; serviços noturnos ou em dia ou em horas normalmente sem expediente em redações de jornais, hospitais, fábricas, etc.; plantocionista é a pessoa encarregada de tal serviço. A palavra emergência significa: ação de emergir; nascimento; situação critica acontecimento perigoso ou fortuito, incidente; caso de urgência; excrescência de uma parte. Os profissionais que atendem em plantão reconhecem que quase sempre, todos estes significados surgem nos atendimentos.

O Plantão Psicológico surge como uma modalidade alternativa de atendimento psicológico, de caráter breve e individual que visa, em uma ou até quatro sessões, orientar e auxiliar na resolução de dificuldades focadas em questões emergenciais e que nem sempre precisam de acompanhamento prolongado.

Esse atendimento poderá se estender por uma ou mais sessões, utilizado Poe quem o procure: adulto, família, adolescentes, em qualquer instituição, onde haja profissionais disponíveis para um atendimento psicológico. O objetivo do atendimento é possibilitar que o cliente tenha uma visão mais clara de si mesmo e de sua perspectiva frente à problemática que vive e que gera um pedido de ajuda.

“É um tipo de intervenção psicológica, que acolhe a pessoa no exato momento de sua necessidade, ajudando-a a lidar melhor com seus recursos e limites, na medida em que (o plantocionista) se coloca disponível a acolher a experiência do cliente em determinada situação, ao invés de enfocar o seu problema. A expressão plantão está associada a certo tipo de serviço, exercido por profissionais que se mantêm a disposição de quaisquer pessoas que deles necessitem, em períodos de tempo previamente determinados e ininterruptos.” (MAHFOUD, In Rosenberg 1987, pp.75-83)

O plantão psicológico originou-se no Serviço de Aconselhamento Psicológico do Instituto de Psicologia da USP (SAP – IPUSP), por volta de 1969, descrito por ROSENBERG (1987, p.5).

MAHFOUD (1987) descreve este tipo de trabalho como uma forma de atender uma gama bastante ampla de demandas, pois o foco é definido a partir do referencial do cliente, pelo acolhimento da sua experiência. O profissional responde ao cliente no momento presente de situação do encontro. O trabalho do psicólogo consiste em facilitar ao cliente uma visão mais clara de si mesmo e de suas possibilidades, estabelecendo a sua forma de enfrentar a problemática.

Devido ao caráter imediato de atendimento, muitos imaginam que o Plantão destina-se a atender somente pessoas em crises emocionais agudas e quadros psiquiátricos graves. No entanto, a proposta não é de “um serviço para emergências psiquiátricas, mas sim, uma escuta imediatista, recebendo a pessoa no momento da dificuldade, sem que necessariamente a intensidade desta dificuldade tivesse atingido um ponto crítico que representasse ameaça iminente à sua integridade ou a de outros” (ROSEENTHAL, p.19,1986).

Os plantões oferecem: ajuda no reconhecimento de problemas ou conflitos ainda não identificados; apoio em situações de isolamento na cidade grande; orientação e esclarecimento de natureza didática; oportunidade de desmistificação do papel do psicólogo, como ocasião de esclarecimento de fantasias ou preconceitos em relação à atuação. (ROSENTHAL, 1986, p.8).

O Plantão Psicológico não tem a pretensão de que uma única sessão seja capaz de resolver sérios problemas emocionais, ou promover resultados reconstitutivos da personalidade. Para estes casos, o cliente é encaminhado para uma terapia contínua. Porém, muitos efeitos podem surgir de um encontro focado na solicitação do cliente, onde tanto o terapeuta como o cliente, esteja por inteiro e acreditando na tendência ao desenvolvimento.

O Plantão Psicológico pode se desenvolver com qualquer abordagem teórica, onde a estrutura e a própria metodologia adotada pelos plantocionistas pode neutralizar aspectos importantes como às inúmeras características das demandas e da própria população observada; já que tem uma forma com alguns padrões rápidos, com resoluções práticas e intervenções que visam o comportamento delas perante o ambiente.

Como disse ROGERS (1983):

“Os indivíduos possuem dentro de si vastos recursos para a autocompreensão e para modificação de seus autoconceitos, de suas atitudes e de seu comportamento autônomo. Estes recursos podem ser ativados se houver um clima, passível de definição, de atitudes facilitadoras” (ROGERS, 1983, p.38).

A idéia central desta modalidade de atendimento é oferecer à pessoa que o procura a possibilidade de ser acolhida e ouvida. A partir desta escuta, questões emergentes poderão ser trabalhadas. Qualquer questão que venha a incomodar o cliente é uma questão importante. “Ouvir pode sugerir uma atitude passiva, mas não é. Ouvir implica acompanhar, estar atento, presente. Presença inteira”. (ROSENTHAL, in Mahfoud, p.27,1999).

Sobre esta escuta Rogers disse: “Constato (…) que ouvir traz conseqüências. Quando efetivamente ouço uma pessoa e os significados que lhe são importantes naquele momento, ouvindo não suas palavras, mas ela mesma, e quando lhe demonstro que ouvi seus significados pessoais e íntimos, muitas coisas acontecem. Elas se sentem aliviadas (…). Tornam-se mais abertas ao processo de mudanças.” (ROGERS, p.6, 1999).

Objetivos Gerais

O presente trabalho tem como objetivo avaliar as possíveis características sócio-demográficas, as condições de saúde e dados clínicos da clientela que procura o atendimento no Centro de Psicologia da UNIP (CPA).

Procedimentos

Os atendimentos foram realizados no 2º Semestre do ano de 2009, que ocorreram nas quartas-feiras no período das 19h30min às 21h30min horas, nos quais são atendidos em média 10 pacientes por período, sem agendamento prévio. As sessões tinham em média 50 minutos de duração, podendo variar com as características e demandas pessoais de cada cliente e também com a relação estabelecida entre o plantocionista/cliente e estes tinham direito a retornos para colocações de possíveis encaminhamentos.

As sessões eram realizadas em dupla, que tinham função de terapeuta e co-terapeuta, ou seja, um realizava a sessão e o outro aprendia com a observação. Na classe havia 13 estagiários que se dividiam nessas duplas. Foi elaborado pelo supervisor do estágio um protocolo com informações, a serem coletadas com cada cliente atendido, sem obrigatoriedade. Este protocolo fez com que coletássemos dados pessoais destes clientes, para posteriormente analisar e discutir sobre o que foi coletado e observado durante todos os atendimentos. Os atendimentos também eram registrados em um programa de computador elaborado pelo próprio orientador do estágio para que as informações fossem arquivadas e analisadas após todos os atendimentos serem realizados.

Estas sessões eram supervisionadas semanalmente após a realização dos atendimentos pelo professor supervisor.

Resultados

Os dados coletados e apresentados abaixo seguem o critério do objetivo deste trabalho, por meio de uma estatística descritiva, através de freqüência e porcentagem.

Com relação às características sócio-demográficas, os dados da tabela número 1 mostram a distribuição dos dados segundo as variáveis: sexo, idade, estado civil, escolaridade, profissão, renda familiar, número de pessoas na família e religião.

No que se refere à idade, a faixa etária que mais procura o serviço de plantão psicológico é a adulta, entre 30-39 anos, resultando um total de 31%. Com relação à clientela adulta também, observa-se que 20% dos atendimentos ficam dirigidos para a faixa etária de 20 aos 29 anos.

A população das crianças representa uma porcentagem significativa nos atendimentos do plantão, na faixa etária entre 5 e 9 anos a porcentagem é de 18%.

Com relação ao estado civil, foi observado que 54% dos pacientes são casados e 20% solteiros.

Mostra na tabela que a maioria dos clientes atendidos no CPA tem ensino fundamental incompleto, incluindo as crianças ou ensino médio completo, num total de 67%.

Dos pacientes atendidos, 30% declararam possuir renda familiar entre 2 e 3 salários mínimos e 25% dessa população tem renda familiar de 3 e 4 salários mínimos e da população total, 64% tem a família constituída entre 3-4 pessoas.

Quanto a religião, 56% são católicos e 31% são evangélicos.

Os dados apresentados na tabela 2 ilustram as condições de saúde dos pacientes.

Nessa tabela é possivel observar que 32% da população atendida faz uso de alguma medicação, 29% passa por algum atendimento médico, 21% já passaram por internações e 17% dessas pessoas afirmaram fazer uso de alcóol.

Pode-se constatar a partir dos dados apresentados na tabela 3, que as queixas que se constituem nos principais motivos de procura do atendimento psicológico relacionados pelos plantocionistas estão relacionadas a problemas de relacionamentos representando 60% dos casos atendidos, sendo que 38% eram referentes a conflitos familiares.

Dos casos atendidos também estão envolvidos problemas escolares, representando 27% e 23% que possuem algum tipo de transtorno. Podemos citar como outras queixas, dependência, perdas e luto, psicopatologias e saúde.

Os dados da tabela 3 também mostram que 75% chegaram para atendimento através do próprio interesse e 25% através de encaminhamentos de terceiros.

Com relação à avaliação do problema pode-se observar que 64% dos casos atendidos eram agudos, enquanto 36% eram crônicos. Quanto à gravidade do caso 69% dos clientes foram considerados de baixo risco, 25% de médio risco e 6% com alto risco.

Dos clientes atendidos 86% dos clientes tinham o suporte social adequado e 13%, considerado este suporte fraco.

Esta tabela também mostra através dos dados que 64% dos clientes atendidos apresentam estabilidade de humor, sendo que 36%, instabilidade.

Ainda observando os dados da tabela 3, caracteriza que 88% dos estagiários (plantocionistas) utilizaram a intervenção diretiva.

No que se refere aos encaminhamentos, 40% foram encaminhados dentro da própria clínica da UNIP, 26% foram encaminhados para outras instituições e 34% dos pacientes receberam alta.

Em relação ao número de sessões a tabela mostra que 47% foram atendidos em uma única sessão, 36% foram atendidos em duas sessões, 13% em três sessões e 5% dos pacientes tiveram as quatro sessões que são permitidas no atendimento do Plantão.

Para finalizar, os dados da tabela sobre faltas nos atendimentos de retorno mostram que 67% dos pacientes faltaram às sessões.

Discussão

O plantão psicológico ajuda o paciente em sofrimento a equilibrar-se perante esse momento de crise, deixando com que ele relate sua história demonstrando para o plantocionista o que tanto lhe incomoda. Neste momento, em que passa por esta crise, isto é, torna-se impossibilitado em se restabelecer naquele momento, percebendo-se incapaz de satisfazer seus desejos, vontades e ideais nesse período, procurando por um auxílio, uma ajuda.

No atendimento emergencial, o paciente cria um ajustamento e reavalia suas possibilidades de mudança conscientizando-se da necessidade de apropriar-se de sua totalidade e integralidade.

Antes de recorrer ao atendimento psicológico, os pacientes buscam encontrar soluções plausíveis e suporte emocional em sua rede de relacionamentos sociais. Quando seus recursos se esgotam, a probabilidade de procurar ajuda psicológica, aumenta (ANCONA-LOPEZ, 1996).

Como podemos observar na tabela 3, a grande maioria que busca por atendimento psicológico no plantão está passando por uma crise, ou seja, um problema agudo que representa 64% da população atendida.

Este tipo de atendimento, também foi criado como uma forma de amenizar a necessidade de uma grande demanda dessa clientela à espera de atendimento psicológico em uma instituição pública, sendo que estas pessoas podem beneficiar-se de um único encontro com um psicólogo, não necessitando da psicoterapia.

Observa-se que o psicólogo é visto como um atendimento voltado para as classes, média e alta da população, não favorecendo a maioria dos clientes atendidos no plantão, pois a maioria desses clientes como podemos visualizar na tabela 1 recebe em média de 2-4 salários mínimos para sustentar em média de 3-4 pessoas, ficando inviável tirar dessa renda uma quantia razoável para atendimento psicológico de todas estas pessoas.

Dos atendimentos realizados 40% do total, foram encaminhados para a própria Instituição, sendo os casos que se adéquam ao atendimento realizado dentro de uma clínica escola. O restante da população atendida recebeu alta que equivale 34% desta e 26% dessa população foram encaminhados para atendimentos externos, pois o Plantão segue uma norma de no máximo quatro atendimentos por paciente ou não seria considerado um Plantão e sim uma Psicoterapia Breve, que não é o propósito desse atendimento.

O levantamento da população atendida no plantão psicológico evidenciou uma maior incidência nos problemas de relacionamentos de uma forma geral com 60% do total.

Os problemas familiares também devem ser destacados com 38% dos casos atendidos.

Ainda com relação ao perfil da clientela, os resultados desse levantamento demonstram que entre as queixas mais encontradas são: luto e perdas, problemas escolares, dependência, psicopatologias e transtornos, isto significa que há uma diversidade com relação à procura por atendimento psicológico.

Constou-se também que a maioria das pessoas que ainda procuram por ajuda de um psicólogo são as mulheres, representando 63% do total de atendimentos, incluindo as crianças.

A partir da experiência de obter vários tipos de demanda fica evidente o valor que o plantão assume para melhor compreender a demanda da população e para o encaminhamento dos usuários a serviços que possam atendê-los em suas necessidade; porém o objetivo do serviço é fazer com que as pessoas atendidas reflitam sobre a queixa e consigam concatenar com possíveis soluções.

Na prática em Plantão Psicológico, pude vivenciar a riqueza peculiar de cada caso atendido, de cada experiência que se abria em busca de um crescimento pessoal. Pude crescer na medida em que os casos atendidos exigiam um olhar diferenciado, um conhecimento a ser buscado, um silêncio a ser tolerado e um raciocínio clínico a ser estimulado.

Com os atendimentos, pude verificar que a teoria só faz sentido, quando a prática a comprova e a reafirma como instrumento de compreensão e intervenção terapêutica.

O Plantão é capaz de proporcionar atendimento qualificado, oferecer acolhimento, promover reflexões e potencializar mudanças significativas em cada um dos atendidos e é importante ressaltar o reconhecimento dos limites impostos e admitir a não resolutividade para os casos mais complexos, nem tampouco para todas as demandas que no plantão chegam.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANCONA-LOPEZ, S. Reflexões sobre entrevista de triagem ou: n prática e teoria é outra. Internações: Estudos de Psicologia; v.3, nº11, p.50-56, janeiro/junho, 1996.

FERREIRA, A. B. H. Miniaurélio Século XXI Escolar: O minidicionário da língua portuguesa/ Aurélio Buarque de Holanda Ferreira; coordenação de edição, Margarida dos Anjos, Marina Baird Ferreira, Lexicografia, Margarida dos Anjos… [et al.]. 4 ed.ampliada. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.

MAHFOUD, M. A Vivencia de um Desafio: Plantão Psicológico. In Rosenberg, R.L. (org)-Aconselhamento Psicológico Centrado na Pessoa. São Paulo, EPU, pp.75-83, 1987.

ROGERS, C. Um jeito de ser. São Paulo, EPU, 1983 e1999.

ROSEENTHAL, R.W. – Plantão Psicológico: Uma Nova Proposta para o Atendimento à Comunidade. Texto apresentado no IV Encontro Latino da ACP em Sapucaí-Mirin. São Paulo,1986.

ROSENBERG, R.L. Biografia de um serviço. In: Rosenberg, R.L. (org) – Aconselhamento Psicológico Centrado na pessoa. São Paulo, EPU, 1987.

Araraquara, 16 de Dezembro de 2009.

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Estagiária: Flávia Milani de Paula Supervisor: Oliver Zancul Prado RA: 743657-2 CRP: 06/55700-1

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