O SENTIMENTO DO PSICÓLOGO HOSPITALAR DIANTE DA MORTE DE SEUS PACIENTES HOSPITALIZADOS EM FASE TERMINAL: UMA AMOSTRA DA CIDADE DE ARARAQUARA

O SENTIMENTO DO PSICÓLOGO HOSPITALAR DIANTE DA MORTE DE SEUS PACIENTES HOSPITALIZADOS EM FASE TERMINAL: UMA AMOSTRA DA CIDADE DE ARARAQUARA

Paula Elvira Picchi Mendes RA 7444524

Silvana Fonseca Coutinho RA 805542-4

Projeto de pesquisa apresentado como condição para aprovação e conclusão Psicologia Integrada IV sob a orientação da Profª. Maria Diva Lucarelli.

UNIP – UNIVERSIDADE PAULISTA - Instituto de Ciências Humanas - Campus Araraquara

2009

SUMÁRIO

1 – Introdução …………………………………………………………………………………………………….. 05

1.1–Levantamento bibliográfico………………………………………………………………………… 05

1.2 – Objetivo………………………………………………………………………………………………….. 17

1.3 – Justificativa…………………………………………………………………………………………….. 18

2 – Método………………………………………………………………………………………………………….. 18

2.1 – Sujeito……………………………………………………………………………………………………. 18

2.2 – Instrumento…………………………………………………………………………………………….. 18

2.3 – Aparatos ………………………………………………………………………………………………… 18

2.4 – Procedimento………………………………………………………………………………………….. 18

3 – Redução fenomenológica dos relatos………………………………………………………………… .19

4 – Resultados e Discussão ………………………………………………………………………………….. 25

5 – Considerações Finais ………………………………………………………………………………………. 27

6 – Referências ……………………………………………………………………………………………………. 29

7 – Anexo …………………………………………………………………………………………………………… 31

RESUMO

MENDES, P. E. P; COUTINHO,S. F; LUCARELLI, M. D. (orientadora).O sentimento do psicólogo perante a morte dos pacientes em fase terminal, Situações Práticas em Psicologia, Curso de Psicologia, Instituto de Ciências Humanas, UNIP – Universidade Paulista. São Paulo – Araraquara, 2009.

Este estudo buscou compreender como o psicólogo hospitalar se sente perante a morte dos pacientes, o que possibilitou conhecer, como trabalham com seus sentimentos, ao se perceberem como seres finitos, diante da morte do outro. Partiu de uma abordagem fenomenológica, considerando seu olhar ao outro, e a valorização das experiências do individuo. Foram realizadas entrevistas individuais, de forma aberta, contendo uma única pergunta, para três psicólogas da cidade de Araraquara, as quais tiveram contato com a morte de pacientes hospitalizados. Depois de transcritas, as entrevistas foram submetidas à análise fenomenológica. Os resultados sugerem, como principais sentimentos desses profissionais: a impotência, a frustração, a possibilidade de lidar com seus próprios limites e a aprendizagem de superação de dificuldades pessoais perante esta situação. Apontaram a busca de recursos pessoais (ressignificar) e a ajuda externa (terapia e supervisão) como possibilidades de vencer os sentimentos suscitados pela morte. Conclui-se que a experiência deste profissional, em seu fazer, leva-o a ter uma percepção e uma compreensão melhor de seus sentimentos, gerando novas possibilidades, que tornam o fazer e o sentir oportunidades de ressignificar tudo o que experiencia, como algo que o completa e que facilita a identificação de si mesmo como um ser de possibilidade, capaz de aprimorar e transformar o seu fazer. Os relatos, tomados como únicos, possibilitaram refletir sobre o fazer do psicólogo, mas não esgotam todas as possibilidades e sentimentos dos profissionais de psicologia em sua vivência diante da morte de um paciente.

1 – Introdução:

1.1 – Levantamento Bibliográfico

Contexto Histórico

Campos (1995) cita Gonçalves (1983) e Borba (1985) para fazer uma relação com a origem da palavra hospital, que vem do latim “hospes”, que significa hospedes, que deu origem a “hospitalis” e “hospitium” que designavam o lugar onde se hospedavam na Antiguidade, enfermos, viajantes e peregrinos.

A autora cita que, a primeira entidade de assistência – Hospital- surgiu na Itália iniciando-se a “Era dos Hospitais” como atividades básicas de restaurar a saúde e prestar a assistência, simplesmente concluindo diagnósticos e efetuando tratamentos limitados pelos padrões da época.

De acordo com Campos (1995), os primeiros hospitais foram criados como locais de isolamento onde a caridade se exercia como uma pratica de cristianismo. Eram locais para pobres, mulheres desamparadas, velhos e doentes crônicos, sob cuidado de monges e religiosos. Nas Américas, o primeiro hospital foi construído na Cidade do México, em 1524: o Hospital Jesus de Nazareth. No Brasil em 1538, fundaram a primeira Santa Casa, localizada na Cidade de Santos.

Segundo Romano (1999), a partir da década de 50, a instituição Hospital pode ser comparado a uma empresa, uma conscientização por parte das instituições de saúde de que era necessário incorporar novos conhecimentos, principalmente das ciências de administração e até de hotelaria.

Para a Organização Mundial de Saúde

[...] o hospital é parte integrante de um sistema coordenado de saúde cuja função é dispensar á comunidade completa assistência médica, preventiva e curativa, incluindo serviços extensivos á família em seu domicilio e ainda um centro de formação dos que trabalham no campo da saúde e para as pesquisas biossociais (apud CAMPOS, 1995, pg 20).

Ainda em Campos (1995), temos a definição de Hospital, dada pelo Ministério da Saúde

[...]hospital é parte integrante de uma organização médica e social, cuja função básica consiste em proporcionar á população assistência médico-sanitária e de investigação biossocial (apud CAMPOS, 1995, pg 20).

Gonçalves (1983) afirma que o hospital não pode ser entendido, desvinculado e isolado da comunidade que pretende servir, mas como parte integrante e integrada da própria dinâmica do mundo atual. (apud CAMPOS, 1995)

A comissão criada pelo Governo Federal deu a seguinte definição de hospital:

[...] hospital é a instituição destinada a internar para diagnostico e tratamento, pessoas que necessitam de Assistência Medica e cuidados constantes de enfermagem. (apud CAMPOS, 1995, pg 22)

Segundo Borba (1985), O patrono das Administrações Moderna nos Hospitais definiu hospital como:

“Hospital é a representação do direito inalienável que o Homem tem de gozar saúde, e o reconhecimento formal, pela comunidade, da obrigação de prover meios para mantê-lo são ou restaurar-lhe a saúde perdida”. Focaliza aqui os direitos humanos e responsabiliza a comunidade quanto á preservação sanitária de seus componentes individuais e da saúde coletiva. Destaca assim os aspectos das funções restaurativas inerentes ao hospital. (apud CAMPOS, 1995, pg 23)

As funções do hospital, segundo Gonçalves (1983, apud CAMPOS, 1995), poderiam ser agrupadas em:

a) Prestação de atendimento médico e complementar aos doentes em regime de internação

b) Desenvolvimento, sempre que possível, de atividade de natureza preventiva

c) Participação em programas de natureza comunitária, procurando atingir o contexto sócio-familar dos doentes, incluindo aqui a educação em saúde, que abrange a divulgação dos conceitos de promoção, proteção e prevenção da saúde.

d) E a sua integração ativa no sistema de saúde.

O hospital deverá fazer um trabalho, segundo Campos citando Gonçalves (1983) e Borba (1985), com as entidades de bairro e com as lideranças da comunidade, transmitindo-lhes que a saúde é um bem comum a ser cultivado e desenvolvido. Cada grupo de participantes do processo, o próprio doente e a equipe de saúde têm, cada um, seu próprio objetivo, definido por suas necessidades pessoais e por sua escala de valores.

Campos (1995), salienta quatro formas de atendimento: criança, adolescente, adulto e idoso. Por muitas vezes pensamos no individuo como um todo, mas já existe serviços especializados em algumas instituições hospitalares.

O atendimento á criança, apesar de já existir em quantidade adequada, a mãe e familiares passam a ver a criança apena em horário de visita, o que não preenche as suas necessidades afetivas e cria uma angustia na família. (apud CAMPOS, 1995, pg 51).

Em relação a adolescentes, o atendimento hospitalar ainda não é bem desenvolvido no país, a não ser nos grandes centros, onde, muitas vezes, o pediatra que vem acompanhando o crescimento e desenvolvimento da criança. (apud CAMPOS, 1995, pg 52).

O atendimento ao adulto parece continuar preenchendo as necessidades do ponto de vista assistencial, inclusive a dos psicólogos, vêm sendo solicitadas, está se intensificando o interesse diferenciado por uma abordagem mais global, multiprofissional. (apud CAMPOS, 1995, pg 52).

A freqüência do idoso no hospital vem num crescente, mas encontra uma ambiência hospitalar despreparada para recebê-lo, a sociedade não o reconhece como alguém suficientemente importante para merecer atenção especial. (apud CAMPOS, 1995, pg 52).

A Organização Mundial de Saúde OMS conceitua saúde como sendo “o completo bem-estar físico, psíquico e social, ocorrendo conjuntamente, e não apenas a ausência de doença ou enfermidade”. (apud CAMPOS, 1995, pg 54).

De acordo com Angerami-Camon (2004), a Psicologia Hospitalar, assim como a psicoterapia, tem sua parte teórica de atuação, firmado na área clínica. Apesar dos pontos em comum, existem diferenças que mostram os limites de atuação do psicólogo no contexto hospitalar.

O autor ainda refere-se à psicologia hospitalar como uma realidade que, embora ainda necessite de aperfeiçoamento e muitas buscas, será certamente, a mais rica das variantes da psicologia.

Nas colocações de Campos(1995) citando Gonçalves(1983) e Borba(1985), surgem algumas questões que devem ser analisadas: diante das várias fontes de poder do hospital, há espaço para a aplicação da psicologia e algum poder para o psicólogo? Onde estaria o psicólogo atuando na estrutura hospitalar?

O profissional da saúde no caso, o Psicólogo que atua dentro do Hospital, procura envolver o individuo e as áreas sociais da saúde publica, buscando sempre o bem estar individual e social. (CAMPOS, 1995)

Segundo Angerami-Camon (2004) o psicólogo hospitalar trabalha diretamente voltado ao paciente, tendo um olhar mais clínico, pois cabe a ele, tornar as informações eficazes, simples, repetitivas, segundo as características pessoais e coletivas que bem conhece, para que uma aprendizagem seja realmente incorporada e realizada em sua plenitude, sendo concorde com as tarefas maiores do hospital.

O autor cita que um dos principais objetivos deste profissional é a minimização do sofrimento provocado pela hospitalização, onde ele precisara ter claro em sua atuação hospitalar não é psicoterápica .

No ambiente hospitalar a relação do psicólogo com os demais profissionais da equipe de saúde deve abranger a totalidade das possibilidades dessa interação, e sempre atento para as outras intervenções que possam ocorrer durante o desenvolvimento de suas atividades, sem esquecer que é um catalisador dos processos emocionais surgidos dentro das realidade institucional. (ANGERAMO-CAMON, 2004)

Segundo Campos (1995), o psicólogo tem um papel clinico, social, organizacional, com áreas de atuação que abrangem Psicologia Preventiva e de Tratamento, perante a atuação do profissional dentro de uma instituição Hospitalar.

Para Romano (1999), ao longo do tempo, o hospital firmou um compromisso com a comunidade, envolvendo-se não só nos problemas da doença, no caráter curativo e de hoje, mas também cuidando de aspectos do amanhã, preventivo, previnindo-os durante a hospitalização, fazendo com que o paciente este não volte mais, cedendo lugar a um outro, igualmente necessitado. (apud CAMPOS, 1995)

No entanto, Campos (1995) também destaca a função separadora do hospital, pois separa o individuo da família. A internação separa a criança de seus pais e estes autorizam tal separação, porque confiam. Salienta ainda, que nesta relação hospital/paciente, o paciente e seus familiares têm de se sujeitar as imposições administrativas e técnicas, nem sempre podendo saber o que se passa com seu corpo, qual tratamento esta sendo feito. É necessário lembrar que antes de ser um doente, ele é uma pessoa que esta doente.

Campos (1995), lembra que alguns tópicos do Código de Ética do Hospital Brasileiro apontam as responsabilidades do hospital em relação à vida e à recuperação da saúde dos pacientes:

[...] a pessoa é a razão de ser de toda a atividade humana. Este principio se aplica, em particular, as instituições publicas e privadas, as quais incumbe preservar, manter e recuperar a saúde. Parte inseparável do sistema de saúde, o hospital é o campo privilegiado da atuação dos respectivos profissionais, bem assim para seu aperfeiçoamento profissional e realização pessoal e técnica (apud CAMPOS, 1995, pg 37).

Com relação aos familiares do paciente assim será estabelecido:

[...] o paciente e/ou seu responsável legal tem direito irrestrito a toda informação referente a sua saúde, ao tratamento prescrito, as alternativas disponíveis e aos riscos e contra-indicações implícitas em cada etapa desta. È de reconhecimento ao paciente o direito – de recusar determinado tratamento (apud CAMPOS, 1995, pg 38).

A autora ainda diz que acredita que a pessoa, quando busca um atendimento hospitalar, leva não só seu corpo para ser tratado, mas vai por inteiro, atingindo a sua família, que participa de seu adoecer em todas as sua fases, do período em que o paciente permanece dentro e fora do hospital.

Angeramo-Camon (2004) diz que o paciente hospitalizado precisa adaptar-se ao novo momento vivenciado, sendo que a psicologia pode auxiliá-lo neste processo, podendo intervir junto ao paciente em relação às mudanças concretas e objetivas. O psicólogo tem como função acompanhar o paciente e aos fatores que influenciam sua estabilidade emocional, como orientar as rotinas da UTI, estimulando o contato do paciente com a família e equipe, visando a facilitação da comunicação efetiva e afetiva.

Segundo Pregnolatto (2003), o fato de adoecer implica em algumas dificuldades para o paciente hospitalizado, pois perde algumas de suas referências do meio externo onde vive. Ao adoecer, o ser humano deixa de ocupar sua posição frente à sociedade, impedindo-o muitas vezes de realizar suas funções, como membro de um grupo de trabalho, social e familiar. ( apud, ANGERAMI-CAMON, 2004).

Campos (1995) observou em sua experiência que por várias vezes o paciente internado não sabia ao certo o que estava acontecendo com ele, como seu corpo reagia e como ele poderia estar se ajudando na sua própria reabilitação, fazendo da sua recuperação algo mais fácil de acontecer, mais tranqüilo.

A autora fala ainda que os aspectos relacionados à doença, ao doente e ao adoecer estão presentes também na vida dos profissionais que atuam dentro do hospitalar e os inquietam, trazendo á tona questões pessoais que merecem ser consideradas também por eles. O psicólogo deve oferecer sua contribuição diversificada a cada paciente.

A questão da internação e a perda da autonomia do individuo também é apontada por Sebastiani (1984), que assim se pronuncia:

[ ...] o fato de ter de ser levado ao hospital e ser internado já implica por si só uma quebra do domínio sobre si mesmo, pois, neste caso, passará de uma situação de vida como agente, para uma situação de paciente tanto no sentindo psicológico quanto no orgânico. (apud CAMPOS, 1995, pg 31).

O paciente tem o direito de saúde, a entender o seu tratamento, a conhecer o seu diagnóstico e a saber das possibilidades de sua recuperação. A equipe multiprofissional, especial o médico, tem dever para com o paciente de informá-lo sobre sua situação, e ao psicólogo cabe a tarefa de trabalhar os conteúdos emocionais que emergem do paciente.

A partir do momento que o paciente é diagnosticado e dá entrada no hospital a sua vida social e emocional muda, ele fica impossibilitado de trabalhar, de se divertir, tira-o do convívio familiar e dos amigos. Cada paciente vive a sua dor: por mais que os outros se esforcem para compreendê-lo, ninguém sentirá o que ele sente. A experiência da dor é sentida de forma única, pela pessoa (CAMPOS, 1995).

Para Campos (1995), enfermidade decorre do modo de ser das pessoas, como sendo a expressão máxima de sua crise existencial, como episodio necessário, sendo que a doença já se elaborava muito antes de sua manifestação. Com isso muitas pessoas, através de seu adoecer e de sua internação, tem oportunidades de reflexão sobre seu modo de vida, suas necessidades, suas vontades, suas características.

Vale a pena dizer que, apesar dos problemas de cada um serem diferentes, cada um tem a sua história pessoal, apesar de todos participarem da mesma sociedade, as sensações de cada um devem ser entendidas na sua individualidade (CAMPOS, 1995).

Campos (1995) fala ainda que o surgimento da doença como um inimigo deve ser estudado, localizado e combatido e, para tanto, existe uma série de medicamentos e profissionais de saúde para combater a doença. No entanto, temos de entender que o ser é único e seu modo de existir e adoecer atende a características próprias, de maneira original, individual.

A autora conclui que todos somos envolvidos na manutenção da saúde, tanto sobre o enfoque individual, quanto no enfoque coletivo. Cada um é responsável pela sua saúde.

Pacientes Terminais: um breve esboço

Para Angerami-Camon (2002) o portador de uma doença degenerativa será sempre visto pela sociedade como alguém que mereça sempre sentimentos de complacências.

Dessa maneira, o autor ressalta que encontraremos pacientes com doenças degenerativas em que, mesmo não se encontrando no aspecto terminal de suas vidas, mas abatidos e fracos fisicamente, não conseguirão voltar a suas atividades anteriores ao surgimento da doença.

O autor ainda complementa que essas pessoas são rejeitadas nas diversas situações de sua vida, e até mesmo nas situações em que elas precisarem exercer atividades produtivas. Segundo este autor, essas pessoas carregarão o fardo de alguém desacreditado socialmente, seja em termos de capacidade produtiva, ou em termos de mitos de que se reveste a problemática da doença (Angerami-Camon, 2002).

Além das dificuldades que os pacientes enfrentam, o autor salienta que uma das atitudes mais terríveis são os preconceitos que sofrem, que infelizmente proporciona muito mais dor ao tratamento do indivíduo. O preconceito faz com que toda e qualquer patologia associada diretamente com a idéia de morte seja considerada infectocontagiosa e seus portadores, pessoas que necessitam ser tiradas do convívio social. (ANGERAMI CAMON, 2002).

O contexto hospitalar diante do paciente terminal

O paciente terminal é um ser humano que enfrenta muitos conflitos internos onde suas emoções estão confusas em relação à doença. Além de um acentuado temor que se relaciona com seu tempo de vida limitado (ANGERAMI, 2002).

Os familiares têm grande importância no tratamento dos pacientes, e essa participação vem a influir no estado deste, determinando inclusive aspectos de rejeição ou aceitação, frente ao tratamento, até mesmo frente à própria doença. As equipes de profissionais, na tentativa de confortar, acabam entrando em conflitos, porque não conseguem encontrar formas de amenizar a dor e o sofrimento do paciente, que passa a carregar o estigma de alguém que está morrendo (ANGERAMI, 2002).

O papel do profissional é informar o paciente o que realmente está acontecendo, não no sentido de dar-lhe o diagnóstico da doença, mas esclarecendo dados sobre a intervenção hospitalar aguardando o compreender a sua condição de paciente terminal. (ANGERAMI, 2002).

Representação da morte dentro dos hospitais

Segundo Kovács (1992), cada um traz dentro de si “uma morte”, por tradição cultural, familiar ou mesmo por investigação pessoal, ou seja, a sua própria representação de morte.

A autora cita que, desde os homens das cavernas, há inúmeros registros sobre a morte, como ruptura, como perda, desintegração, degeneração, fascínio, sedução, que poderia ser uma grande viagem, entrega, descanso ou alivio.

Por ter consciência de sua finitude o homem busca sua imortalidade. Durante todo seu desenvolvimento cria possibilidades de ocultamento desse assunto, em termos culturais, psicológicos ( KOVÁCS,1992)

A autora destaca os vários tipos de morte que sofremos em nossas vidas

Nos primeiros meses de vida: A criança vive a ausência da mãe, sentindo que esta não esta todo o tempo presente. Estas primeiras ausências são vividas como mortes, a criança se percebe só e desprotegida, essa impressão fica marcada como uma das representações mais fortes de nossa vida, essa morte é sentida como ausência, perda, separação e a conseqüente vivencia de aniquilação e desamparo.

Com o seu desenvolvimento afetivo e emocional, a criança experiência as mortes efetivas que a rodeiam, tentando compreender o que se passa.

Segundo a autora, acredita-se que a criança não sabe nada sobre a morte e que, portanto, deve ser poupada, pois seria difícil para a criança definir vida e morte. Para sua percepção a morte seria deixar de se mover, parada de algumas funções vitais como alimentação, respiração, mas essa morte em sua concepção é reversível, pode ser desfeita.

Esse sentimento de reversibilidade, conforme enfatiza a autora, faz parte do pensamento infantil, o pensamento mágico e a onipotência, assim, a criança se representa como o herói que durante o dia vence a sua fragilidade e, à noite, tem os seus pesadelos, os monstros, os dragões e os fantasmas que a ameaçam.

Kovács(1992) ainda diz que a morte passa a adquirir alguns de seus contornos principais, o caráter de violência, repentinamente, ao acaso. Uma das formas principais de proteção passa a ser a crença de que a morte só ocorre com os outros, que a violência só seria com os outros.

Nesta fase da vida fica também presente o sentimento de culpa perante a morte, sentimento que se relaciona muito bem com o pensamento mágico e onipotente infantil e com os elementos de sociabilização que levam a desejos de morte, de tal forma que, se ocorre uma morte, é inevitável que a criança estabeleça uma relação entre esses desejos e a morte efetiva (KOVÁCS, 1992).

É freqüente a atribuição de culpa em relação à morte do outro, muitas vezes associada à falta de cuidados e sentimentos exacerbados no processo de luto, acrescenta a autora.

Na adolescência a palavra chave é desafiar, com sentimento de herói como a criança, só que um herói mais potente, com todas as possibilidades de criação e execução, sem freios restritivos da razão e da maturidade. Não tendo assim em sua vida um lugar para a morte (KOVÁCS, 1992).

Assim, a autora enfatiza que ao desafiar a vida, pode estar a morte, não só a do outro mas a própria. Através de seu desenvolvimento cognitivo o adolescente sabe que a morte é definitiva, não tem, portanto, o elemento protetor da inconsciência, pelo menos do ponto de vista racional.

Para a autora, ele vive várias mortes concretas, como a perda de amigos, colegas em acidentes, overdose, assassinatos e doenças. Mas seu pensamento conclui que a morte ocorre por inabilidade, acontece com os outros, e não com ele, por estar presente seu sentimento de herói.

A autora conclui que fica claro, através desses pensamentos, a busca e o desejo da imortalidade do ser humano, o seu desejo de ser herói, forte, belo e onipotente.

Contudo, a autora ressalta que os impulsos da adolescência tendem a diminuir, a pessoa se torna mais ponderada e calma, pois, se permanecesse no ritmo da fase anterior, poderia adoecer.

Na fase adulta, segundo a autora, é quando fazemos um balanço do que foi a nossa existência até aquele momento. Através desse balanço passa–se a ter a percepção que a morte não se configura mais como algo que acontece somente aos outros, mas que pode acontecer conosco também, assim, a vida passa a ter um novo significado.

Desta forma o pensamento do herói é substituído pela consciência que não temos todo o tempo do mundo, o limite não esta lá para ser extrapolado e sim para ser conhecido e admitido.

A velhice: é a fase da vida que o pensamento de morte vem com maiores características negativas, pois ocorrem perdas corporais, financeiras, de produtividade e muitas vezes, a separação da própria família se torna inevitável (KOVÁCS, 1992).

Contudo a autora coloca que o processo de desenvolvimento e consciência de cada um, representa cada uma dessas perdas de forma particular (KOVÁCS, 1992)

Para a autora, a morte como limite nos ajuda a crescer, mas também é dor, perda da função, das carnes, do afeto, solidão, tristeza, pobreza, sendo uma visão que nos causa repulsa e terror.

Para Kovács (1992), a morte clinica é definida quando todos os sinais de vida (consciência, reflexos, respiração, atividade cardíaca) estão ausentes, embora uma parte dos processos metabólicos continue a funcionar.

Segundo a autora, cada pessoa pode relacionar o pensamento de morte a um dos seguintes aspectos:

A)Medo de morrer: quanto á própria morte, surge o medo do sofrimento e da indignidade pessoal. Em relação á morte do outro é difícil ver o seu sofrimento e desintegração, o que origina sentimentos de impotência por não se poder fazer nada.

B)Medo do que vem após a morte: quando se trata da própria morte e o medo do julgamento, do castigo divino e da rejeição. Em relação á do outro, surge o medo da retaliação e da perda da relação.

C)Medo da extinção: diante da própria morte existe a ameaça do desconhecido, o medo de não ser e o medo básico da própria extinção. Em relação ao outro, a extinção evoca a vulnerabilidade pela sensação de abandono.

Segundo Cassorla (1992), colocam que:

O desconhecimento é uma das experiências que mais aterroriza o ser humano. O profissional de saúde, no contato com a fragilidade humana e com as expressões psicológicas de desamparo, medo, solidão, depressão, dor, agressividade e, sobretudo, diante da morte, defronta-se com seu desconhecimento. O não saber é uma das coisas mais apavorantes para o ser humano. Perde-se a capacidade de controle, fica-se submisso a algo desconhecido, e isso é desesperante. (Apud MAIA, GUIMARÃES E RIBEIRO 2003, pg 05).

Laplanche & Pontalis, (1991), dizem que por a morte ser algo tão temido criou-se alguns mecanismos de defesa, que são constituídos de diferentes tipos de operações utilizadas para neutralizar ansiedades por meio de diversas modalidades de manipulação de conflitos criados entre condições de realidade, impulsos e proibições (apud MAIA, GUIMARÃES E RIBEIRO, 2003).

Kovács (2003) cita alguns mecanismos de defesa quando estamos frente a morte que são: negação, repressão, intelectualização e deslocamento. Esses podem nos proteger ou nos restringir.

Maia Guimarães e Ribeiro (2003), citando Eizirk (2001) descreve cada um desses mecanismos:

Negação: evitar aspectos dolorosos da realidade, negando fatos que afetam a percepção da realidade externa.

Repressão: retorno no desenvolvimento em razão da dificuldade de enfrentar as ansiedades e desafios atuais.

Intelectualização: tentativa de controlar os impulsos e os afetos, sem experiência-los.

Deslocamento: redirecionamento de sentimentos vinculados a um objeto ( por exemplo, fobias)

Segundo Stedeford (1986), os mecanismos mentais e as defesas não são sentidos apenas pelos pacientes, mas também pelos profissionais que o rodeiam. Quando os mecanismos são utilizados positivamente, podem contribuir para melhor adaptação e proteção, mas se utilizados negativamente, tornam-se prejudiciais.

Segundo o mesmo autor, os mecanismos mais utilizados negativamente pelos profissionais de saúde de uma forma geral são:

Identificação: quando o profissional começa a pensar da mesma forma que seu paciente.

Generalização: Quando o profissional tem uma exagerada ansiedade que o leva a perder de vista os conhecimentos que possui.

Deslocamento: a raiva do paciente é dirigida à equipe.

Proteção: o profissional começa a duvidar da eficácia do seu atendimento por não compreender que as acusações do paciente são originadas por ele não tolerar a idéia de morte.

Os cinco estágios do paciente terminal

Primeiro estágio: negação e isolamento. Neste estágio, segundo Ballone (2002), a negação e o isolamento são mecanismos de defesas temporários do Ego contra a dor psíquica diante da morte. A intensidade e duração desses mecanismos de defesa  dependem de como a pessoa que sofre e as outras pessoas ao seu redor são capazes de lidar com essa dor, o paciente se defende da idéia da morte, recusando-se a assumi-la como realidade.

Segundo estágio: raiva. Neste estágio, o paciente coloca toda sua revolta diante da notícia de que seu fim está próximo, e chega a ficar agressivo com as pessoas que o rodeiam Por causa da raiva, que surge devido à impossibilidade do Ego manter a negação e o isolamento, os relacionamentos se tornam problemáticos e todo o ambiente é hostilizado pela revolta de quem sabe que vai morrer. Junto com a raiva, também surgem sentimentos de revolta, inveja e ressentimento. É de extrema importância a compreensão do familiar sobre a angústia transformada em raiva na pessoa que sente interrompidas suas atividades de vida pela doença ou pela morte (BALLONE, 2002).

Terceiro estágio: barganha. Ballone (2002) diz que este estágio é o momento no qual o paciente tem uma esperança de cura. Havendo deixado de lado a negação e o isolamento, “percebendo” que a raiva também não resolveu, a pessoa entra no terceiro estágio, onde assumem mais as características de súplicas.

Quarto estágio: depressão. Neste estágio, o paciente se recolhe, vivenciando uma enorme sensação de perda. A depressão aparece quando o paciente toma consciência de sua debilidade física, quando já não consegue negar suas condições de doente, quando as perspectivas da morte são claramente sentidas. Aqui a depressão assume um quadro clínico mais típico e característico; desânimo, desinteresse, apatia, tristeza, choro, etc (BALLONE, 2002).

Quinto estágio: aceitação. Nesse estágio o paciente já não experimenta o desespero e nem nega sua realidade, aceita sua condição, é quando não mais sente depressão e nem raiva. É o momento em que encontra paz e aceita o que está acontecendo. Os momentos de silêncio são maiores e seus interesses diminuem. Neste momento é a família que mais precisa de ajuda

1.2 Objetivo

O objetivo deste trabalho foi promover um momento de reflexão, buscando a possibilidade de chegar à essência do sentimento do psicólogo hospitalar diante da morte, através do relato de sua vivência com pacientes em fase terminal.

1.3 Justificativa

O trabalho é relevante socialmente, pois pretende, através da compreensão dos fenômenos, transformar o distante em próximo, diante dos pressupostos de que a morte é geradora de uma multiplicidade de sentimentos e que a convivência com ela, no cotidiano laboral, só é possível mediante a compreensão articulada destes, podendo assim, contribuir para uma reflexão do psicólogo hospitalar de forma a evitar seu adoecimento.

2. Método

2.1 Sujeito

O presente trabalho teve como participantes 3 profissionais formados em psicologia, que atuam na área hospitalar,do município de Araraquara, cidade do interior de São Paulo, e que têm algum contato, em seu trabalho, com pacientes em fase terminal.

2.2 Instrumentos

Para realizar a coleta de informações, foram utilizados os procedimentos de observação, entrevista e compreensão dos fenômenos coletados. É importante manter uma atitude flexível e aberta admitindo que outras interpretações possam ser colocadas,

discutidas e igualmente aceitas

Portanto, importa a cada investigador buscar a melhor forma de aproximação aos seus depoentes. Neste trabalho foi utilizado uma pergunta aberta,(Diante da situação de morte de um paciente, qual o seu sentimento e sua percepção enquanto profissional e o que esta experiência representa para você) em anexo 1, levando em consideração o alcance dos objetivos propostos e aspectos que propiciem ou facilitem o encontro social.

2.3 Aparatos

Gravador de Áudio

2.4 Procedimentos

Entramos em contato com três psicólogos que trabalham em instituições hospitalares tanto da rede pública como privada, convidando-os a participar da pesquisa, conforme o Termo de Consentimento Livre Esclarecido. (Anexo 2)

As entrevistas foram marcadas individualmente, com cada um dos profissionais, em seus locais de trabalho,sem um tempo pré-estabelecido de duração, sendo em média uma hora.

Realizamos as entrevistas individuais no local de trabalho de cada profissional, ou seja, fomos ao encontro de cada psicólogo para que a entrevista acontecesse no seu próprio local de atuação. O gravador foi utilizado com o intuito de gravar a entrevista para que posteriormente a mesma pudesse ser transcrita, e usada como fonte de análise dos fenômenos para a pesquisa.

Ao iniciarmos a entrevista, lançamos a pergunta: diante da situação de morte de um paciente, qual o seu sentimento, percepção quanto profissional e o que este contato resulta para você, com relação aos seus sentimentos.

Em vários momentos incentivamos os entrevistados a falar sobre alguns episódios que, por algum motivo, afetaram os seus sentimentos perante os pacientes em fase terminal.

Partindo do pressuposto que a morte é como uma vivência, como um fenômeno, a partir do olhar fenomenológico, os sentimentos dos pesquisadores foram colocados entre parênteses ou em suspensão, possibilitando um olhar dos sentimentos dos entrevistados sobre a morte, na sua multiplicidade de significados, atribuídos por cada indivíduo entrevistado.

Fez-se uma leitura das descrições das experiências na íntegra, a fim de obter o sentido integral dos discursos, uma visão geral daquilo que foi manifestado, para então se familiarizar com a experiência vivida pelos sujeitos. Procedeu-se a várias releituras dos fenômenos discursados, procurando identificar as convergências e as divergências, separando do conjunto dos discursos as expressões significativas para a compreensão do fenômeno.

  1. Redução fenomenológica dos relatos

Segundo Coelho e Merleau-Ponty (1991), a redução fenomenológica visa definir e escolher quais as partes da descrição do fenômeno que são consideradas importantes e aquelas que não o são. Se torna necessário mais uma vez colocarmos em suspenso os nossos sentimentos sobre o assunto e os nossos julgamentos a respeito do mesmo. (apud SPIRI e LEITE, 2002)

Psicóloga M.1

A fala da profissional revela que em seu local de trabalho tem uma grande carga de responsabilidade, pois é chamada pela equipe para acompanhar casos que exigem de seu fazer como psicóloga. Ao relatar sobre o sofrimento das mães ao verem seus bebês mortos, se coloca no lugar das mesmas, e expressa sua compreensão diante do fenômeno dizendo ser extremamente penoso para a mãe sua vivência.

[...]É extremamente penoso, complicado para a mulher viver tudo aquilo e o bebê nasce morto[...].

Relata que a vivência com as mães e os bebês na maternidade se restringe a UTI, na qual o vínculo é cortado, mas ao falar da maternidade expressou um sentimento de indignação pois onde há espaço para a vida, não deveria existir para a morte.

[...]A gente tinha um trabalho vivenciado também pela equipe pois a maternidade é um lugar onde só tem vida, a maioria é vida[...].

Ao ser questionada sobre como se sentia perante os fenômenos vivenciados na maternidade, a psicóloga expressa um sentimento de impotência e coloca como condição para realizar seu trabalho fazer terapia/supervisão, pois se depara com algo inesperado, como a morte de um bebê, e isso para ela é devassador:

[...]na verdade agente não tava achando por algum motivo, e o bebê tinha tido uma urgência, na verdade é um negócio que pouco acontece, é super raro, que é um nó no próprio cordão-umbilical, chama nó verdadeiro, e era um bebê formado que assim… a coisa mais fofa do mundo e morto. Então assim, ele já estava há algum tempo na barriga da mãe morto, acho que um dia, então ele tava meio escamando. Então, que eu me lembre, essa foi o mais chocante, foi o mais difícil de lidar, até porque é uma coisa esquisita, o cordão-umbilical serve para alimentar e como que ele pode na verdade matar?[...]

A essência do relato é que a morte de bebês é algo inaceitável para a profissional, e o sentimento de não dar conta é devassador, pois é ambíguo a vida, não ter vida.

Psicóloga C.2

A psicóloga evidencia claramente sinais de desconforto relacionados com a dor da despedida, quando no seu relato ela se mostra incomodada com a falta de tempo que muitas vezes acaba por romper o vínculo que vinha estabelecendo durante algum tempo com paciente, e é neste momento da sua fala que o sentimento de não continuidade aparece diante do falecimento de um paciente.

[...] acabo tendo um contato maior com essa situação de morte, me lembro de um paciente … que só deu tempo do “tchauzinho”[...].

Os sentimentos variados que surgem com relação à questão “dar conta” e conseguir “dar conta” são claros quando ela se cobra perante a situação de impotência considerada por ela:

[...]isso muitas vezes me faz sentir impotente como se meu trabalho não tivesse sido cumprido, com a sensação de inacabado[...]

Ela tenta amenizar a dor do outro para evitar se ver como alguém que sofre:

[...]mas o que eu posso fazer, não depende só de mim.[...]

A necessidade da busca pelo conforto do outro (se importar com o outro), se impõem para ela como uma marca da profissão:

[...] porque eles já passam por tantas situações dolorosas que eu tento amenizar da melhor maneira [...]

Pela busca incessante do conforto, acolhimento e ajuda necessárias àquele paciente diante da doença:

[...] e que nada que eu fizesse fosse mudar alguma coisa mas eu sempre busquei de alguma forma, sei lá, amenizar, trazer para o paciente algum tipo de conforto, bem estar, algo que no momento pudesse ser menos doloroso[...]

Os sentimentos, as atitudes e as próprias práticas presentes no confronto com a morte, representam para ela um desafio:

[...] no começo era muito difícil eu sentia medo da morte, … hoje já consigo administrar melhor[...]

Ela tenta não se colocar mais na situação do outro, para evitar a frustração “do não conseguir”, do “não ter tido tempo”, do “inacabado” e da “impotência” que são representações fortes que marcam o seu lugar dentro da instituição hospitalar:

[...]tento não ficar pensando muito… fazia mil planos na minha cabeça… e de repente eu chegava na hemodiálise ai me avisavam que o paciente tinha falecido[...].

Para superar os conflitos considerados por ela, a maneira encontrada e menos traumática, revelada por ela foi de mudar a sua forma de pensar como pessoa:

[...]tudo o que eu podia ter feito eu fiz, ou até mesmo, até a onde deu[...]

Reconhece com isso que nem tudo depende dela:

[...]tudo tem limite, o seu limite, existem coisas que não só dependem de mim eu não posso ir mais além[...]

Psicóloga E.3

A entrevistada aponta em seu relato a existência de maior possibilidade de morte ao se referir a um determinado grupo de risco, quando inicia sua fala sobre seu primeiro trabalho, que a levou a ter experiência com a morte:

[...]Quanto à questão da morte, eu tenho que relembrar desde da experiência dos obesos, o termo já fala, obesidade mórbida, é um termo que está em desuso hoje em dia, mas… eram obesos que já estavam condenados à morte[...]

No desenrolar da entrevista, revela um sentimento de angústia, como se as condições do ambiente de trabalho contribuíssem para tornar presente a idéia da morte:

[...]e nós entramos na UTI eu levei um choque, porque era um hospital publico, regional, muito escuro um ambiente assim, que parecia o corredor da morte[...]

Em muitas falas, demonstra como se protege, buscando justificativa para a morte do paciente no estado critico e no despreparo do mesmo, associando – a a impulsos inatos.

[...]para mim não foi tão choque quando ela faleceu, de certa maneira a gente já acreditava que poderia ter uma certa complicação, pois era uma paciente que não estava preparada[...]

[...]Mas teve várias coisas que me fizeram pensar, quanto a questão da morte, da força, e a gente falam, que dava para diferenciar, onde a gente via a pulsão de vida e a pulsão de morte[...]

Percebe-se no entanto, que na vivência da morte dos pacientes, ela não revela um sentimento uniforme, um sentimento padrão, aponta que existe uma relação entre o afeto dela para com o paciente e o sentido que dá à morte, pois quanto maior a sensibilidade e empatia desenvolvidas por ela para com o paciente, maior a sensibilidade diante da morte, parecendo colocar-se no lugar do outro e vivenciar com mais intensidade a morte.

[...]não vou dizer que eu não me envolvia,eu me envolvia principalmente se era um paciente que eu tinha muito contato, eu sempre procurava ver quais recursos que a pessoa tinha para eu poder ajudar[...]

[...]de certa maneira eu levei um choque… tem pacientes que mesmo que sejam difíceis, a gente tem um pouco mais de afinidade, tem aquele amor transferêncial, que a gente costuma dizer[...]

Refere-se a um sentimento de impotência, frente à questão da diversidade de escolhas do outro, como a da religião dos pacientes, parecendo ser um desafio quanto a aceitação do outro como um ser de escolhas.

[...] religião que ao mesmo tempo tem a fé, que ajuda a curar, que te dá uma pulsão de vida, e a fé que prejudica, em questões de vida, por exemplo os testemunhas de Jeova, que não permitem a transfusão de sangue[...]

[...]E a gente tinha que aceitar, era uma escolha.. [...]

[...]Eu me sentia impotente, digamos, pois a visão que a gente tem de psicologia, é que o individuo tem a opção de escolha[...]

Percebe-se que o fato da entrevistada entrar em contato cotidiano com a morte, no decorrer do tempo ela passou a vivenciar esse fato como algo natural, que pode sugerir um processo de aproximação com a aceitação da finitude para si.

[...]no outro dia eu chegava e falava assim, me atualiza, quem morreu, quem tá vivo[...]

A entrevistada comenta que mesmo lançando mão de todos os seus recursos, quando o paciente falece, surge um sentimento de frustração relacionado ao seu fazer, como que inconformada com o resultado ( a morte), já que acreditava que seu trabalho e a força do paciente pudessem vencer a morte:

[...]eu fiz um trabalho bem legal com ela, com a família, ela estava se recuperando, mas quando ela foi para o quarto, ela faleceu. Eu não acreditava, porque ela tinha uma força incrível, e para mim, aquilo, foi como destruir um trabalho que eu tinha feito, é como se toda a força que ela tinha, tinha sido jogada no lixo[...]

No final, conclui, com certo desânimo, que o papel do psicólogo é importante nas situações de morte, tanto para o paciente terminal, quanto para a sua família, mas que este fica na dependência do reconhecimento e do espaço que a instituição atribui a ele.

[...]Sabe, nesses momentos eu vejo que o psicólogo, não adianta, tudo sobra para ele[...]

[...]e eu pensava, vou fazer o máximo que eu posso enquanto estou aqui, mas não tinha mais o que fazer.. ainda se eu fosse contratada pelo hospital, até poderia pensar em alguma coisa, em um atendimento mais contínuo, até para evitar situações, o psicólogo estando ali, por exemplo, ele consegue evitar certas imperícias, até a visão dos enfermeiros quanto à morte[...]

[...]o psicólogo ele tem uma visão da morte, como posso dizer, ele consegue manter o acolhimento enquanto a pessoa esta lá, a família também aceita melhor[...]

4. Resultados e Discussão

Através dos depoimentos obtidos e de uma inter-relação empática, foi possível chegar à compreensão do fenômeno vivido, investigado, e não à sua explicação. (SIMÕES & SOUZA, 1997).

Assim, quanto ao sentir do psicólogo, diante da morte do paciente em fase terminal, os vários aspectos trazidos pelos entrevistados foram categorizados, os quais serão apresentados e discutidos a seguir.

1) O contato constante com a morte fazem sentir-se impotente:

Segundo Kovács (1992), por ter consciência de sua finitude, o homem busca sua imortalidade. Durante todo seu desenvolvimento, cria possibilidades de ocultamento desse assunto, em termos culturais e psicológicos. Ao se deparar com sua finitude o ser humano sofre. Esta afirmação foi percebida nas entrevistas, na medida em que traziam um sentimento de impotência, que aparecia como se a morte fosse algo inesperado, algo que gostariam de explicar e ter o controle, mas que não era possível diante da concretização da morte do paciente.

Também fica clara quando eles mencionam o momento da despedida, revelando desconforto e dor, além do incômodo causado pela sensação da falta de tempo e do rompimento do vínculo estabelecido com o paciente. E mais ainda quando revelam a indignação por encontrarem morte, em espaços para vida, mostrando a ambigüidade com a qual se deparam e ao mesmo tempo, a frustração com as limitações do seu fazer enquanto profissional.

2) O contato com a dor do outro coloca o profissional diante de sua própria dor:

Campos (1995) comenta que os aspectos relacionados à doença, ao doente e ao adoecer estão presentes também na vida dos profissionais que atuam dentro do hospital e os inquietam, trazendo à tona questões pessoais que merecem ser consideradas também por eles.

Através da analise das entrevistas, ao revelarem seus sentimentos diante da dor do outro, mostram o que poderíamos dizer que seria “ se ver através da dor do outro”, se colocar no lugar do outro para conseguir entender melhor as questões da finitude do ser.

Mostraram que entender a dor do outro perante a morte é vivenciar com ele todo o processo; quando o profissional conseguia desenvolver essa empatia, ele passava a compreender o fenômeno da vivência da morte. Junto com esta compreensão aparece a necessidade de amenizar o sofrimento do outro, de trazer conforto ao outro, de tornar o momento menos doloroso, como se o fizesse a si mesmo

3) Uma diversidade de sentimentos:

Segundo Kovács (1992), tratar de pacientes em fase terminal não é uma tarefa fácil; sentimentos de impotência e frustração podem ocorrer. Há o medo de ver a dor, o sofrimento e a degeneração física. Reações contratransferências podem ser comuns, despertadas pelos sentimentos acima relacionados.

Em alguns depoimentos percebe-se que o convívio diário com a morte parece torná-la habitual, pois passa a ser vista como um fato a mais no cotidiano, do profissional. Para outros ainda, o sentimento de medo da morte é substituído pela sensação de conseguir administrar o que ela provoca, embora fique clara a tentativa de fugir dos sentimentos em alguns momentos, de evitar se colocar no lugar do outro, como forma de proteção, de evitar a frustração.

Também está presente o afeto que foi desenvolvido a partir do contato com o paciente, mas que às vezes se mistura com a tentativa de racionalizar, surgindo justificativas ligadas a impulsos inatos e ao quadro clínico do paciente.

A frustração relacionada ao fazer do psicólogo também aparece de forma marcante, revelando a dificuldade em lidar com os limites impostos pela morte, comparando-os com fortes inimigos, capazes de destruir todo um trabalho realizado com o paciente.

4) Uma iluminação sobre o ser finito:

Segundo Kovács (1992), é importante ao terapeuta perceber os próprios sentimentos, como a questão da morte, da finitude e da desintegração que repercutem internamente, para que a partir desse ponto, consiga proporcionar um melhor desenvolvimento do seu fazer, oferecendo uma humanização para o paciente em questão e uma elevação do seu trabalho para si.

Os depoimentos desvelam que com o tempo, a vivência do profissional com a morte do paciente passa a ser superável, no momento em que descobrem como se livrarem daquela dor, mesmo que só momentaneamente.

Assim, pode-se dizer que mostraram que, através da experiência, é possível aprenderem a vivenciar esse sentimento de não vida. Também mostraram que podem utilizar recursos pessoais (ressignificar o estado do paciente) e ajuda externa (terapia, supervisão) para vencerem os sentimentos suscitados pela morte.

Observa-se ainda em suas falas que procuram justificar, esse sentimento de tornar habitual a convivência com a morte comparando-a a um processo natural, demonstrando assim uma potencialidade para a superação e para a aceitação da finitude.

5. Considerações Finais

No decorrer deste estudo, foi possível perceber, através das falas dos profissionais, um pedido de ajuda, como se a teoria deixasse ficar no ar seu fazer, não dando o respaldo necessário para enfrentarem o que o contato direto com a morte provoca neles, que também são seres humanos. Utilizam-se da compreensão da psicologia, de terapia pessoal e de supervisão, como refúgio à compreensão da própria finitude, ao vivenciarem a do outro.

Ficou evidente a dificuldade dos profissionais entrevistados em lidar com a morte, e que há uma maior preocupação em ter tempo para realizar um trabalho mais amplo com essas pessoas.

Intervir como profissional da área da saúde requer habilidades tais que possibilitem o acolhimento e o cuidado com o outro e com a alma, na tentativa de auxiliar a pessoa na recuperação da abertura das múltiplas possibilidades de sua existência, e para tanto pareceu-nos ser necessário que este profissional também entre em contato e compreenda as múltiplas possibilidades de sua própria existência.

Percebe-se por fim, que a experiência deste profissional, em seu fazer, diante deste fato (a morte), leva-o a ter uma percepção e uma compreensão melhor de seus sentimentos, gerando novas possibilidades, que tornam o fazer e o sentir oportunidades de ressignificar tudo o que experiencia, a todo o momento, como algo que o completa e que facilita a identificação de si mesmo como um ser de possibilidade,capaz de aprimorar e transformar o seu fazer.

Os relatos trouxeram diversos pensamentos e experiências únicas, que foram muito significativas e possibilitaram refletir sobre o fazer do psicólogo, no entanto, ao considerarmos cada ser humano como sendo único, este estudo não esgota todas as possibilidades e sentimentos dos profissionais de psicologia em sua vivência diante da morte de um paciente, mas contribuiu para que não se desconsidere o ser humano que atua como profissional.

6. Referências

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BALLONE G.J. Lidando com a Morte – in. PsiqWeb Psiquiatria Geral, publicado em, 2002 – disponível em <http://gballone.sites.uol.com.br/voce/morte1.html> Acesso em: 14  Novembro  2008.

CAMPOS, T. C. P. Psicologia Hospitalar: a atuação do psicólogo em hospitais. São Paulo: Editora Pedagógica e Universitária LTDA, 1995

KOVÁCS, M.J. (org). Morte e desenvolvimento humano. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1992

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MARTINS J.; BICUDO M. A. V. A pesquisa qualitativa em psicologia: fundamentos e recursos básicos. São Paulo: Moraes, 1989.

MOREIRA, Virginia. O método fenomenológico de Merleau-Ponty como ferramenta crítica na pesquisa em psicopatologia. Psicol. Reflex. Crit. [online]. 2004, vol.17, n.3, pp. 447-456. ISSN 0102-7972.

PREGNOLATTO, A. P. F. ; AGOSTINHO, V. B. M. . O Psicólogo na Unidade de Terapia Intensiva – Adulto. In: Makilim Nunes Baptista, Rosana Righetto Dias. (Org.). Psicologia Hospitalar: Teoria, Aplicações e Casos Clínicos. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2003, v. 1,

ROMANO, B.W. Princípios para a prática da psicologia clínica em hospitais. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1999.

SIMÕES S. M. F., SOUZA I. E. O. Um Caminhar na Aproximação da Entrevista Fenomenológica. Rev. Latino-Am Enf., v. 5, n.3, p. 13-7, 1997.

SPIRI, Wilza Carla; LEITE, Maria Madalena Januário. O significado do trabalho em equipe na reabilitação de pessoas com malformação craniofacial congênita. Rev. esc. enferm. USP, São Paulo, v. 38, n. 3, Sept. 2004 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0080-62342004000300007&lng=en&nrm=iso>. access on16 Aug. 2009. doi: 10.1590/S0080-62342004000300007.

7 . Anexo 1:

Pergunta: Diante da situação de morte de um paciente, qual o seu sentimento e sua percepção enquanto profissional e o que esta experiência representa para você?

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