Entendendo a importância do sono e dos sonhos. Como se processa o sono e quais os significados dos sonhos

Os sonhos são produtos da própria atividade mental e processam-se, predominantemente, por imagens visuais, mas também recorrem a impressões auditivas; seu conteúdo é derivado da experiência, mostrando conhecimentos e impressões que o indivíduo acordado muitas vezes não percebe (FREUD, 1900).

Além do estado desperto normal, o sono, é naturalmente, o outro estado de consciência cujo reconhecimento é mais comum. As pessoas passam boa parte da vida dormindo, como a maioria dos mamíferos. O desenvolvimento do eletroencefalógrafo (EEG) foi decisivo para o progresso das pesquisas sobre o sono e o sonho. Berger, um psiquiatra alemão, em 1924, foi a primeira pessoa a registrar o EEG de um homem. Berger só publicou os seus primeiros registros em 1929. Suas descobertas abriram caminho a uma intensa atividade de pesquisa. Muitas pesquisas foram realizadas posteriormente para ampliar e aprofundar as descobertas de Berger, colocando ao alcance de todos uma considerável soma de informações sobre a atividade elétrica do cérebro humano (KIMBLE, 1975).

Segundo MAGNIN (1992), os movimentos lentos dos olhos que apareciam logo antes do sono, também ocorriam durante a noite e estavam diretamente relacionados a profundidade do sono. Seu principal foco de pesquisa era por que motivo, quando uma pessoa deveria estar relaxada, seus globos oculares se comportavam como se ela estivesse acordada assistindo a um filme. E a partir daí veio a confirmação de que o sono não é um estado tranqüilo.

Um colaborador muito importante em tais descobertas foi o Dr. William Dement, que em 1952 era aluno do segundo ano da Faculdade de Medicina na Universidade de Chicago e hoje em dia é o atual chefe do Centro de Pesquisa do Sono na Universidade de Stanford também em Chicago. Ele deu a este estranho estágio do sono o nome de REM (rapid eye movementes, ou seja, movimento ocular rápido) e a seu oposto o nome de NÃO-REM. O experimento consistia em acordar as pessoas tanto no estágio REM como no NÃO-REM para verificar se havia alguma diferença. Então em 1957, o Dr. Kleitman que foi de fato quem estava interessado em estudar estes estágio do sono, publicou os primeiros resultados de um estudo no qual as pessoas foram despertadas cento e noventa e uma vezes durante o sono REM. Em 80% dessas ocasiões os pacientes podiam lembrar-se com nitidez de estar sonhando na hora em que foram despertados (MAGNIN 1992).

Inversamente, em cento e sessenta vezes em que foram despertados pacientes cujas ondas cerebrais e globos oculares imóveis mostravam que estavam que estavam no sono NÃO-REM, houve apenas onze casos (6,9%) em que os pacientes puderam lembrar de estar sonhando. Os pesquisadores ficaram eufóricos e o jovem William Dement não podia esperar para demonstrar a ligação entre o sono REM e os sonhos. Assim, aprendeu a afixar eletrodos em seu próprio couro cabeludo e conseguiu que outro estudante de medicina monitorasse as leituras, com instruções para acordá-lo cada vez que estivesse no sono REM. Ao chegar a hora, o aluno acordou Dement ele não se lembrou de nenhum vestígio de sonho, apenas uma vaga curiosidade para saber que horas eram. Desde então, muito se aprendeu sobre os dois tipos de sono. Os pesquisadores concordaram que existem dois tipos de sono, que se entra e sai de maneira cíclica ( o ciclo médio tem a duração de noventa minutos), que todos sonham mesmo que, pelo fato de poder acordar durante um período NÃO-REM não lembre-se de tê-lo feito (USHER, 1991).

REIMÃO, 1999 (apud SNYDER,1983) relata que em estudos feitos em humanos e, de um modo mais ou menos paralelo, em todos os mamíferos que tem sido estudados, existem uma alternação rítmica de dois estados fisiológicos distintos. Um estado, a que se deu o nome de período de movimento ocular rápido (REM), por causa de seu atributo mais impressionante, é caracterizado pelo alto grau de atividade do sistema nervoso central (SNC), uma supressão da atividade motora periférica e uma associação temporal com as experiências vividas e alucinatórias denominada sonhos. As provas favoráveis a esta última associação, compõem-se de uma elevada porcentagem de recordações oníricas, quando se faz o sujeito despertar durante o período de sono REM; de uma correlação entre a duração subjetiva da experiência onírica e a duração do período REM associado; e de uma estreita correspondência entre os padrões espaço-temporais dos REM’s e os eventos específicos do sonho.

Ao outro estado deu-se o nome de sono não REM e é o estado durante o qual os padrões de onda cerebral mostram sincronização com a presença de ondas lentas e/ou fusos de sono. Não há REM’s, o SNC parece estar em relativo repouso e não há provas de uma supressão ativa. As provas parecem sugerir que uma atividade psíquica de baixo grau pode ocorrer neste período, mas não justifica a suposição de que os sonhos estejam, em qualquer momento, associados ao sono NÃO-REM (REIMÃO,1999 apud SNYDER,1983).

Para o autor, uma consideração interessante é que pessoas com hipoplasia ou anormalidades no corpo caloso cerebral, cessaram seus sonhos ou perderam a capacidade de sonhar por imagens mas sonhavam com palavras.

A medicina psicossomática, considera importante em relação ao sonho, aspectos ambientais tais como, estímulos sonoros e luminosos que são muitos constantes e perturbam o sono das pessoas. A psicossomática também cita um exemplo trazido por Jung de que uma paciente sua, no decorrer de seu processo psicoterápico, traz o sonho com uma amiga que havia morrido de câncer. Jung, recomendou naquele caso, que ela fizesse em exame completo, que detectou um processo canceroso. Neste pensamento, a psicossomática acredita que o inconsciente manda mensagens por meio de sonhos (REIMÃO, 1999).

A Fisiologia e a Biologia sabem situar o sonho no tempo e descrever os fenômenos nervosos e funcionais que o acompanham. Mas não dizem o que é. O sonho parece depender da existência de um córtex cerebral no indivíduo, mesmo se sua indução e realização resulte da organização biológica do sono, nos limites da fisiologia (MAGNIN, 1992).

Dentro do contexto Psicanalítico, o terapeuta ajuda o paciente a interpretar os sonhos para facilitar a recuperação do material do inconsciente. FREUD (1900), também fez algumas generalizações sobre alguns tipos especiais de sonhos como por exemplo sonhos em que se cai, se voa, se nada e sonhos sobre fogo, mas ele também deixa claro que para cada caso em particular as regras podem deixar de ter valia e que as associações de uma pessoa em seu próprio sonho são mais importantes do que qualquer conjunto de regras de interpretação para os mesmos.

Mais importante que o valor biológico dos sonhos são os efeitos psicológicos da elaboração onírica. Esta é o conjunto das operações que transformam os materiais do sonho num produto: o sonho manifesto (LAPLANCHE e PONTALIS, 1990).

Quase todo sonho pode ser compreendido como a realização de um desejo. O sonho é um caminho alternativo para satisfazer os desejos do id. Quando em estado de vigília, o ego esforça-se para proporcionar prazer e reduzir o desprazer. Durante o sono, as necessidades não satisfeitas são escolhidas, combinadas e arranjadas de modo que as seqüências do sonho permitam uma satisfação adicional ou redução de tensão. Para o id, não é importante o fato da satisfação ocorrer na realidade fisico-sensorial ou na imaginada realidade interna do sonho. Em ambos os casos, energias acumuladas são descarregadas (FREUD, 1900).

FREUD (1900), relata que muitos sonhos parecem não ser satisfatórios; alguns são deprimentes, alguns perturbadores, assustadores ou simplesmente obscuros. Outros sonhos parecem reviver o passado enquanto outros se mostram proféticos. Ao analisar os sonhos, e fatos da vida do sonhador, o autor conseguiu mostrar que a elaboração onírica é um processo de seleção, distorção, transformação, inversão, deslocamento e outras modificações em um desejo original. Relata a seus pacientes quanto a permissividade dos sonhos, em que são toleradas ações que estão claramente além das restrições morais da vida de vigília. O sonho é uma forma de satisfazer desejos que não foram ou não podem ser realizados durante o dia. O sonho realiza, em pelo menos dois níveis, incidentes comuns que não foram resolvidos ou que fazem parte de padrões mais amplos e antigos que nunca foram solucionados. Mostra que o sonho é uma forma de satisfazer desejos que não foram ou não podem ser realizados durante o dia. Os resíduos diurnos que forma os conteúdos manifestos do sonho servem como estrutura do conteúdo latente ou dos desejos disfarçados. Os sonhos repetidos podem ocorrer quando um acontecimento diurno provoca o mesmo tipo de ansiedade que levou ao sonho original.

(USHER) 1991, relata que Freud foi muito criticado por basear toda a interpretação dos sonhos no sexo, mas considera injusto toda essa crítica. Para o autor, Freud argumentou que os sonhos de ansiedade costumam ter um trampolim sexual, mas para defender-se, Freud apenas negou que algum dia tivesse afirmado que todos os conteúdos dos sonhos tivessem como base, conteúdos sexuais.

No livro Interpretação dos Sonhos, Freud descreve os modos de trabalho, no que chama o trabalho do sonho: condensação, deslocamento, figuração. O sonho utiliza como material as lembranças da véspera. É a ocasião de realização de uma intenção inconsciente. O sonho constitui, assim, uma das formas de retorno do recalcado e, segundo a expressão de Freud, é a vida real de acesso ao conhecimento do Inconsciente. O recalcamento é conservador para o aparelho psíquico (FREUD, 1900).

DEJOURS (1988) menciona que especialistas em psicossomática mostram que certos sujeitos só sonham excepcionalmente, enquanto outros são grandes sonhadores. Os que sonham pouco seriam os caracteropatas, os grandes sonhadores seriam os neuróticos. Na verdade, essa distinção é esquemática e não diz nada a respeito dos psicóticos entre os quais alguns sonham e outros não. Eles consideram as seguintes possibilidades:

· Sujeitos que sonham e se lembram dos sonhos;

· Sujeitos que sonham, mas não se lembram de ter sonhado.

A segunda categoria é a mais problemática. Para um psicanalista, todo material tem potencialmente um sentido, e é difícil admitir que se lembrar ou não se lembrar de ter sonhado possa ser isento de significado. Segundo alguns biólogos, para se lembrar dos sonhos é preciso memorizá-lo. Se um sonho é esquecido é porque não houve transferência da memória a curto prazo para a memória a longo prazo, e eles definem as condições favoráveis para essa transferência, especialmente o respeito deste estado de tranqüilidade intermediário entre os dois regimes de ativação cortical .

De acordo PERLS (1976), em Gestalt-terapia os sonhos não são interpretados. O que se faz dentro da Gestalt-terapia, é trazer o sonho de volta à vida e isto só é possível se o sonho for revivido como se estivesse ocorrendo agora. O sonho é encenado no presente de forma que se torne uma parte do sonhador e não é apenas narrado como uma história passada. O sonho, segundo o autor, é uma excelente oportunidade de se descobrir os furos de personalidade. Encontra – se tudo o que é necessário em um sonho: a dificuldade existencial e mesmo a parte da personalidade que está faltando.

O mesmo autor sugere que os sonhos são mensagens existenciais que podem ajudar a compreender quais as situações inacabadas (gestalts) que as pessoas carregam consigo, o que falta em suas vidas. Ele diz que se as pessoas compreenderam o que se pode fazer com os sonhos, poderão inclusive fazer muitas coisas sozinhas apenas analisando e dando significado a cada fragmento do sonho que ainda está acessível e contém uma situação inacabada, não assimilada.

O trabalho sugerido para que se faça com os sonhos, começa com o ato de escrever tudo aquilo que se lembra do sonho. Todos os detalhes, objetos, personagens e sensações. Após esta etapa, a pessoa deve colocar – se como sendo cada um dos itens citados, ou seja, o sonho não deve ser relatado como algo passado mas sim encenado, e a pessoa deverá tornar – se naquele momento cada parte de seu próprio sonho experimentando cada sensação. Cada pedaço é visto como uma peça de um quebra cabeça que juntas formarão um todo, uma personalidade mais completamente real. Após ter experimentado todas estas sensações, a pessoa deverá criar um diálogo entre estas coisas fazendo com elas se encontrem. Todas as diferentes partes do sonho, são o próprio indivíduo, uma projeção dele mesmo. A partir daí a pessoa verá seus próprios lados opostos e conflitantes e a medida que este encontro se desenvolve, há um aprendizado mútuo até chegar – se a uma compreensão apreciação das diferenças (PERLS, 1976).

Para USHER (1991), o enfoque de JUNG a interpretação dos sonhos, depois que rompeu com Freud, era mais místico, menos estereotipado, cheio de sombras e mitos. Ele escreveu, aos oitenta e três anos de idade que o que o homem parece ser só pode ser expressado por meio do mito. O mito é mais individual e expressa a vida com mais precisão que a ciência. Esta trabalha com conceitos de médias que são gerais demais para fazer justiça à variedade subjetiva de uma vida individual.

Conforme JUNG (1987), os sonhos desempenham, na psique, um importante papel compensatório. Ajudam a equilibrar as influências dispersadoras e variadas a que as pessoas estão expostas em sua vida consciente; tais influências tendem a moldar o pensamento de diversas maneiras que são freqüentemente inadequadas à personalidade e individualidade de cada um. Os sonhos são realidades vivas que precisam ser experimentadas e observadas com cuidado para serem compreendidas. Ele tentou descobrir o significado dos símbolos oníricos prestando muita atenção à forma e ao conteúdo do sonho e, com relação a análise dos sonhos, Jung comenta a respeito da livre associação defendida por FREUD. “A livre associação vai trazer à tona todos os meus complexos, mas dificilmente o significado de um sonho” (p.149).

JUNG, 1967 (apud HALL,1995) acrescenta que pelo fato do sonho tratar-se de símbolos que possui mais de um significado, não pode haver um sistema simples ou mecânico para sua interpretação. Qualquer análise de um sonho precisa levar em conta as atitudes, experiência e a formação do sonhador. Também leva-se em conta as condições históricas do homem, formulando assim o conceito de inconsciente coletivo. Portanto o sonho para Jung, é uma expressão espontânea, normal e criativa do inconsciente, que ocorre sob a forma de símbolos e imagens. A interpretação do sonho é o esforço de decifrar esses símbolos e imagens, ligando-os e ampliando-os com o material contíguo. Cada sonho deve ser encarado como uma expressão direta do inconsciente do sonhador. A consciência capta uma parte da realidade objetiva, enquanto o inconsciente tem acesso a uma realidade mais ampla e desse modo os sonhos apresentam a função compensatória, ou seja, eles mostram que a psique funciona como um sistema auto-regulador em três aspectos: a) o sonho pode compensar distorções temporárias da estrutura da consciência, dirigindo o indivíduo a um entendimento mais abrangente das atitudes e ações; b) o sonho pode ser visto como auto-representação da psique a medida que pode colocar a estrutura do ego em funcionamento face a face com a necessidade mais rigorosa ao processo de individuação; c) o sonho pode ser visto como uma tentativa para alterar diretamente a estrutura de complexos sobre os quais o ego arquetípico se apoia, para a identidade em níveis mais conscientes.

Ainda sobre a Psicologia Junguiana, FRANZ (1988), cita a técnica para descobrir o significado do sonho: compara – se o sonho a um drama e o examina – se sobre três aspectos culturais. O primeiro, a introdução ou exposição – o cenário do sonho e a colocação do problema; segundo, a peripécia – o desenrolar da história; e finalmente, a lysis – a solução final. A primeira sentença de um sonho em geral descreve a cena da ação e apresenta os protagonistas. Há também dentro da abordagem Junguiana, os sonhos arquetípicos, que têm um significado mitológico e os quais em geral as pessoas não associam a nada. Como por exemplo, se alguém sonha com o planeta Júpiter e é questionado sobre o que pensa a respeito de Júpiter, certamente responderá que se trata de um planeta. Não se sabe o que associar e nada de pessoal vem à mente. Nesse caso, o que acontece é que recorrem – se às associações da humanidade. Que fantasias a humanidade tem a respeito de Júpiter, e a partir daí, coloca – se a resposta no contexto do sonho. A visão Junguiana também fala a respeito da dificuldade em se interpretar os próprios sonhos, porque o sonho nunca diz o que você já sabe. Ele sempre indica algo desconhecido, um ponto cego. O próprio Jung, não tinha quem interpretasse seus sonhos mas relatava – os a um homem que nada entendia do assunto o que o ajudava a encontrar suas próprias respostas.

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