Como os Médicos e outros profissionais da saúde lidam com a morte no hospital
August 18, 2010 – 4:35 pm
Os profissionais da área de saúde tem junto de si a presença e proximidade constante da morte, entretanto, não tiveram uma preparação profissional adequada para enfrentar tais situações no cotidiano hospitalar
O profissional da saúde, teoricamente é preparado para lidar com a morte, a qual, na maioria das vezes é representada por figuras tristes, solitárias e ameaçadoras
Nos cursos de medicina, em geral, as aulas começam nos laboratórios de anatomia, fazendo com que os futuros médicos entrem em contato com a morte despersonalizada, sem identidade e sem história. A doença e a morte são descaracterizadas na tentativa de retirar delas quaisquer aspectos que possam envolver relações pessoais que venham a despertar emoções “indesejáveis” (Kovács, 1989).
No ensino médico, os estudos baseiam-se na dicotomia órgão-corpo, corpo-mente e doença-doente. Ao desconsiderar o paciente como um todo, o trabalho do médico acaba sendo desumano. O tratamento deve ser dado à pessoa como um todo e não ao processo diagnóstico-cura. Ao médico deveria ser ensinado o saber ouvir e, sabendo ouvir, a diferenciar os seus sentimentos dos do paciente, para não correr o risco de manter uma relação projetiva (Esslinger, 1995).
Nos últimos anos, com o surgimento de doenças como a AIDS, a morte vem se tornando tema necessário na formação do profissional da saúde. Na prática desses profissionais, a morte está presente em qualquer lugar onde se possa pensar a presença de seres humanos (op. cit.).
Para os profissionais da área de saúde, o desafio está no duelo entre o status profissional consciente e o inconsciente, onde estão seus fantasmas, medos e tabus. “Para poder exercer a medicina, todo médico necessita incorporar a morte em si, “vacinar-se” para poder conhecer algo sobre ela, lidar com ela, enfrentá-la. Essa vacinação, muitas vezes, produz o resultado do médico se transformar na própria morte (não reconhecer a morte e a vida dos pacientes nem sua própria vida e morte). Entretanto, a medicina não existe isolada dos médicos e cada um irá incorporar a morte – inoculada durante o curso médico – de acordo com sua individualidade” (Lessa, 1995, p. 16).
O fracasso em perder uma vida pode ser uma experiência traumática para muitos profissionais, por isso, muitos procuram relacionar-se com seus pacientes mantendo um papel profissional, esquecendo-se que são pessoas. No entanto, tal comportamento parece impossível, já que a presença da morte em algum momento depara a todos (Cruz, 2001).
A relação médico-paciente muitas vezes é vista como desumana, enquanto deveria ser o contrário. Espera-se que o médico não tenha pressa em seu atendimento, ouça o paciente com atenção, dê explicações sobre as doenças, seja empático, compreensivo e saiba comunicar o diagnóstico e o prognóstico ao paciente e sua família. Porém, deve-se lembrar que o médico está em constante contato com a morte, seja ela real ou algo contra o qual ele tem que lutar. Por isso, torna-se importante compreender os sentimentos e emoções que envolvem a relação médico-paciente, o que não justifica o descaso que tem sido visto, mas torna evidente a necessidade de estudar a morte durante a formação acadêmica, isso não só para os médicos e sim, para todos os profissionais da área de saúde