Como as crianças entendem as regras e a moral: Desenvolvimento da educação em crianças

O Juízo Moral Na Criança

Para Piaget (1994) a essência da moralidade consiste no respeito do indivíduo pelas regras sociais e no desenvolvimento da justiça, no sentido da reciprocidade e da igualdade. A evolução do juízo moral na criança passa de uma moral heterônoma a uma moral autônoma, de maneira esquemática. A criança, de início heterônoma, ao considerar as regras como sagradas e intangíveis, submete-se a elas. As conseqüências materiais de um ato determinam a moralidade deste. Quando as regras que emanam de uma autoridade adulta exterior, não acarretam punição, a criança se conforma com as regras e tem este comportamento como bom.

Na passagem da moral heterônoma à moral autônoma, o papel primordial cabe aos pares com quem a criança se situa verdadeiramente em um nível de igualdade. Desta maneira o constrangimento adulto impõe, para a criança, regras morais completas. A cooperação, pelo contrário, é simples troca entre indivíduos iguais. Graças a ela, a criança elabora as regras em vez de as sofrer (Holper, 1979).

Quanto à consciência da regra, Piaget (1994), a descreve em fases. Pelos 2-3 anos, a criança já fez a experiência das regras que os adultos lhes propõem e que se referem às atividades da vida quotidiana. Durante os primeiros anos, as regras ainda não têm caráter obrigatório, pelo fato de serem puramente motoras e individuais. A partir dos 6 anos, a criança considera que as regras foram elaboradas pela autoridade paterna, ou qualquer outra autoridade exterior, parecendo-lhes sagradas e imutáveis. Em crianças mais velhas, a regra é considerada como lei devida ao consentimento mútuo, tendo origem na própria iniciativa da criança. Respeitar as regras é questão de lealdade, deixando de ser exterior a criança, para depender apenas do consentimento mútuo, pois nesta fase (11-12 anos) passa a ser interiorizada pela criança, pois as mesmas submetem-se verdadeiramente as regras, as praticam e as codificam cuidadosamente, desta forma interagindo com outras pessoas, aumentando o convívio social.

De acordo com Holper (1979), o desrespeito às regras acarreta sanções que podem ser classificadas como sanções expiatórias, que consistem em reconduzir o culpado a obediência, através de coerção e castigo doloroso. As sanções de reciprocidade acontecem de maneira contrária, nelas prevalecem à cooperação entre diferentes pessoas. Por um lado há uma relação entre a natureza do mal e a natureza da punição, por outro a gravidade da falta e a importância da punição são proporcionais. Os pais e os educadores procuram fazer com que a criança compreenda que o seu ato, provoca a rotura de laços sociais de confiança, solidariedade e cooperação, que a ligam a outras pessoas, desta forma é papel do agente socializador que a criança extraia as conseqüências de sua falta, compreendendo seu significado.

Em uma experiência de aprendizagem a propósito do realismo moral, McManis (1974) apud Holper (1979) verificou igualmente que as crianças tinham progressos idênticos quer quando se encontravam frente aos modelos de sua idade, quer quando estavam perante modelos de adultos. Lickona (1976) apud Holper (1979) interrogou crianças de 4 a 7 anos, sobre a possibilidade de mudar as regras de um jogo, assim como o regulamento escolar. Apenas 25% das crianças de 4 anos, julgaram que era impossível mudar as regras do jogo e nenhuma achava possível mudar o regulamento escolar. De acordo com o pesquisador, a incapacidade das crianças de 4 anos de conceber a mudança das regras dever-se-ia não ao seu respeito pelas regras enquanto emanações sagradas de uma autoridade exterior, como considera Piaget, mas a sua incompreensão das noções de permitido e de proibido, requisitos para julgar se o limite entre as situações permitidas e proibidas pode ser deslocado. Ele verificou igualmente que desde muito cedo as crianças são capazes de perceber as localizações de poder em uma estrutura social.

Embora o pesquisador considere esta constatação divergente das idéias mestras de Piaget, de acordo com Holper (1979), suas constatações são compatíveis com as ideias de Piaget, uma vez que para ele, uma regra ou um regulamento pode alterar-se quando as pessoas se situam em um nível de igualdade, mas não quando mantêm entre si relações hierárquicas rígidas.

No domínio do desenvolvimento moral, as normas e os princípios morais são estruturas que se constroem através das interações sociais do sujeito e do outro, não sendo construídas pela interiorização de regras culturais, como prevê as teorias de aprendizagem social. As normas e os princípios morais constroem-se a partir da atividade da criança, que procura organizar e estruturar a sua experiência social. Cada fase, segundo Holper (1979) representa uma construção que tem sua origem, não no próprio mundo social, mas nas ações que o sujeito executa dentro deste mundo social.

Kolberg (1974) cita que de acordo com os teóricos da aprendizagem social, a aprendizagem é relativa à cultura. Ele considera que as principais características do desenvolvimento são universais. Desta maneira, em todas as culturas ocorrem modalidades gerais e idênticas de organização cognitiva, do mesmo modo que em todas as culturas se encontram características universais no mundo social, que fornecem oportunidades semelhantes de interações e conseqüentemente de desenvolvimento moral.

Segundo Piaget (1994), enquanto a criança se desenvolve, encontra-se em pé de igualdade com os parceiros sociais que são as outras crianças, ou os adultos, o respeito unilateral transforma-se em respeito mútuo, que liga e obriga os dois parceiros sociais a interagirem de acordo com o imperativo moral.

Com relação a respeito, Piaget (1994) o classifica em dois níveis, unilateral, que implica em desigualdade entre aquele que respeita e aquele que é respeitado: é o respeito do pequeno pelo grande, da criança pelo adulto, do caçula pelo irmão mais velho. Este respeito implica em uma coação inevitável do superior sobre o inferior e é característico de uma primeira forma de relação social, chamada de relação de coação. Há também o respeito mútuo, em que os indivíduos que estão em contato se consideram como iguais e se respeitam reciprocamente, caracterizando uma relação sem coação, chamada de relação de cooperação. O respeito unilateral em conjunto com a relação de coação moral conduz ao sentimento de dever, enquanto que o resultado do respeito unilateral com a relação de cooperação pode ser caracterizado de sentimento do bem, fazendo com que o ideal de reciprocidade torne-se inteiramente autônomo. Este respeito parece explicar a existência de duas morais freqüentemente observada em crianças que aceitam as regras dos mais velhos por respeito unilateral e a assimilam a um dever prescrito pelo próprio adulto.

Piaget (1994) ressalta ainda que quando a regra é imposta é mais difícil de ser seguida, mas quando intervem como condição de cooperação, isto é, quando as crianças a praticam entre si, não somente é melhor compreendida, como também mais facilmente aplicada.

Segundo DeVries e Zan (1998) a interação com companheiros, muitas vezes é considerada benéfica, auxiliando as crianças a compartilhar e a viver no mundo com outros.

A partir de investigações que foram realizadas dentro do contexto escolar brasileiro, Araújo (1993) observou a influência que ambientes escolares democráticos ou autoritários podem exercer sobre o desenvolvimento do juízo moral infantil.

Desta forma, afirma o autor, que se a criança conviver em um ambiente cooperativo, e portanto democrático, que solicite trocas sociais por reciprocidade, no qual seja respeitada pelo adulto e participa ativamente dos processos de tomada de decisões, por hipótese, tenderá a desenvolver a autonomia moral e intelectual, atingindo conseqüentemente níveis de moral cada vez mais autônomos.

  1. 3 Responses to “Como as crianças entendem as regras e a moral: Desenvolvimento da educação em crianças”

  2. Olá, gostei do artigo.. gostaria de saber quem é o autor e as referencias completas para que eu possa citar vc em meu tcc. Obrigada!

    By talita alves on Feb 27, 2012

  3. Olá, gostei do artigo.. gostaria de saber quem é o autor e as referencias completas para que eu possa citar vc em meu tcc. Obrigada!

    By Maria Ines on Apr 25, 2012

  4. Achei as citações de autores renomados que precisava! falta um dia para eu entregar meu relatório e se não fosse esse saite, não conseguiria concluir o que eu estava procurando sobre a educação infantil…consultei a postila ingteira,li inteirinha mesmo e não encontrava o que eu queria, Agora em menos de 30 mim encontrei meus autores legal. bjs Rosinete.

    By rosinete on May 24, 2012

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